quarta-feira, 25 de maio de 2011

G. K. Chesterton – O Santo da Blogsfera

Ele amava o debate e a controvérsia, mas ao mesmo tempo, conseguiu manter-se magnânimo ao seu inimigo.

Tenho notado nas respostas às minhas duas últimas postagens no blog que algumas pessoas ficam extremamente esquentadas sobre certas questões como ‘direitos das mulheres’, ‘o fantasma da superpopulação’ e assim por diante. As vezes parece que não é possível conduzir um debate sério sem querer dar verbalmente um soco na cara do seu adversário. Qual é o antídoto? Amar seu adversário mesmo quando você explica a ele que seus argumentos são superficiais, ignorantes, irracionais ou confusos; mais fácil falar do que fazer. Havia um homem que amava o debate, a controvérsia e a argumentação, e ao mesmo tempo conseguia se manter magnânimo ao seu inimigo: este era G. K. Chesterton. Acabo de ler "The Holiness of Chesterton", editado por William Oddie, e refletindo que Chesterton teria entrado na blogsfera com entusiasmo. Palavras escritas e respostas rápidas vem para ele naturalmente; idéias e imagens flui incessantemente de sua pena. Diante da brigada ateísta ele teria feito bolhas e faiscado, rindo e se lançando, pronto para vencer assim como para vencer.

Em sua introdução, Oddie cita Chesterton em S. Tomás de Áquimo: A produtividade enorme de S. Tomás, comenta Chesterton, não poderia ter sido alcançada, "se ele não estivesse pensando mesmo quando não escrevia; mas acima de tudo pensando combativamente. Isso em seu caso, certamente não queria dizer rancor ou amargura ou falta de caridade, mas isso quer dizer combativo. Por uma questão de fato é geralmente o homem que não está pronto para argumentar, que está pronto para zombar. É por isso que na literatura recente tem havido tão pouca argumentação e tanto escárnio."

Não havia escárnio nas composições de Chesterton. Ele teria desprezado como um tom de voz, bem como seus companheiro, a amargura e o rancor. Ele também foi santo, porquê ele amava a verdade e amava as pessoas; porquê ele odiava a farsa e a hipocrisia; porquê ele foi generoso e humilde. "Santidade" é uma categoria estranha ao ateísmo, que cheira a trapaça cristã e hipocrisia. Se os ateus pudessem apenas pensar em santidade como um homem muito grande, engraçado e generoso, sincero e bem humorado, cheio de fé e irradiando felicidade, eles teriam alguma idéia do que se trata.

Olhando para trás em sua vida Chesterton certa vez a descreveu como "indefensavelmente feliz", a felicidade de um homem que encontrou a pérola de grande valor e quer compartilhar com todos que ele encontra. Vamos rezar pela sua canonização, como o futuro santo da blogsfera.

___________________________________________________________________
Autor: Francis Phillips
Fonte: CatholicHerald.co.uk
Tradução minha

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Certo onde estávamos errados

Durante o curso de seu longo pontificado, o Papa João Paulo II escreveu grande volume de Cartas Apostólicas, Encíclicas e outros documentos exortando os fiéis da Igreja Católica em várias matérias da fé: reforçar sua vida de oração, aderir ao ensinamento da Igreja sobre o aborto e a contracepção artificial, ter a devida reverência pelo Santo Sacrifício da Missa e pela Eucaristia, ter uma boa compreensão da Doutrina Social Católica (Distributismo), aderir aos ensinamentos morais Católicos, a importância da razão como um complemento à fé, e talvez o mais importante, reafirmar a autoridade magisterial da Igreja, numa época em que a maioria acredita que ela seja uma irrelevante relíquia do passado.

Que efeito tem feito as encíclicas? Bem, não parece haver qualquer ressurgimento de interesse em S. Tomás de Aquino. Católicos ainda estão abortando e usando da contracepção no mesmo rítmo que a população geral. O que lemos acerca de frequentar a Igreja, os políticos Católicos pró-aborto indicam que eles ainda possuem uma aproximação um tanto casual ao Sacramento Católico da Eucaristia. E nós não temos visto nada para nos convercer de que os Católicos são mais bem informados sobre a subsiariedade ou o Distributismo do que qualquer pessoa.

Assim pode parecer razoável concluir que João Paulo II teve pouca influência sobre o seu rebanho, apesar de sua enorme popularidade.

Naturalmente, o impacto total dos 26 anos de pontificado de João Paulo II só pode ser julgado pela história, mas já detectamos um paradoxo que Chesterton teria apreciado: O fato de que extensos ensinamentos de João Paulo II são amplamente ignorados não é um sinal de fraqueza do papado. Nadar contra a maré é um sinal claro de vitalidade.

Ele traz à mente algo que Chesterton escreveu quando discutia sua própria conversão: ''Nós realmente não queremos uma religião que é exatamente onde estamos certos. Queremos uma religião que é exatamente onde estamos errados.'' Se há alguma coisa que a extensa obra de João Paulo II demonstra é esta: que o papado está frequentemente certo não só quando o mundo está errado mas mesmo quando os Católicos estão errados.

Aos detratores da Igreja, Chesterton escreveu: ''Simplesmente levam o humor moderno e quando exige qualquer credo seja cortado para se ajustar àquele humor.'' Que tipo de humor moderno? Tomando uma sugestão do feminismo, os modernos olham o sacerdócio somente masculino e exigem que a Igreja ordene mulheres, pois, eles insistem, o sacerdócio apenas masculino é uma reminiscência de épocas menos esclarecidas. Mas eles se esquecem (ou talvez nem saibam) que os cultos pagãos, que os primeiros Cristão encontrados em toda parte eram dominados por sacerdotisas, e que um sacerdócio apenas masculino parecia tão estranho para os modernos de 2000 anos atrás como ele se parece para os modernos de hoje. Ou talvez os modernos de hoje não são assim tão modernos.

Em sua carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, João Paulo II deixou claro que as mulheres não poderiam ser ordenadas padres porque, como ele disse, a Igreja não tem autoridade para fazê-lo. Em outras palavras, ele não poderia mudar a doutrina da Igreja. Não importa o que as mulheres queiram ou o que diz a moda. Este papa não se guia pelo mau humor. Havia muita gente, Católicos e não Católicos igualmente, que gritou em indignação quando João Paulo II reafirmou o ensinamento antigo da Igreja. Mas ele estava certo enquanto eles estavam errados.

Da mesma forma, a pressão continuou a crescer durante o papado de João Paulo II para a Igreja relaxar seus ensinamento sobre a contracepção artificial, e até mesmo sobre o aborto. A sabedoria popular dizia que diminuindo suas restrições, a Igreja finalmente apanharia o mundo moderno. No entanto, a contracepção e o aborto não são novidade, e os modernos mais uma vez provavelmente não estão consciêntes de que os primeiros Cristãos a chegar a Roma encontraram uma sociedade onde a contracepção, o aborto, e mesmo o infanticídio eram amplamente praticados. (Temos que perguntar: o que é nos modernos que os tornam modernos?)

Contra esta maré, João Paulo II publicou sua encíclica Evangelium Vitae, que reafirmou o antigo e constante ensinamento da Igreja sobre o aborto e a contracepção: que a tomada de uma vida humana inocênce no ventre é mal, que separar o que Deus uniu relativamente ao ato matrimonial é prejudicial à vida e ao amor. Isso não combina bem com os modernos, mas eles estavam errados enquanto o Papa estava certo, e uma maneira de nós sabermos que ele estava certo foi que ele simplesmente repetiu um ensinamento que remonta ao primeiro século, quando os modernos de então eram maus também. Assim foi com João Paulo II durante seu pontificado. Ele era aquela coisa viva que vai contra a corrente das coisas mortas. Era verdade no início quando ele iniciou a queda do comunismo simplesmente dizendo que seus colegas poloneses eram livres independentes de qualquer sistema político sob o qual vivessem, desafiando um mundo que disse que o comunismo não cairia, salvo por uma massiva intervenção militar. E era verdade no final, quando em seus últimos dias ele deu testemunho da dignidade do sofrimento enquanto os estabelecimentos judiciais e políticos dos Estados Unidos conspiraram para matar Terri Schiavo por nenhuma outra razão além de que ela era um incoveniente.

''É nesses casos'', escreve Chesterton, ''que chegamos a real briga da religião, e é nesses casos que chegamos ao triunfo peculiar e solitário da fé Católica. Não é em apenas estar bem quando estamos certos, como em ser alegre ou esperançoso ou humano. É em ter sido bem quando estávamos errados, e no fato de voltar sobre nós mais tarde como um bumerangue.''

Requiesce in Pace, Joao Paulo II: você estava certo, quando nós estávamos errados.


—Sean P. Dailey, do conselho editorial da Gilbert Magazine.
_____________________________________________________________________
Fonte: American Chesterton Society
Tradução minha.

terça-feira, 8 de março de 2011

Como ir à Missa e não perder a Fé

Bux: “No campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação insuportável”

Por Mariaelena Finessi

ROMA, terça-feira, 8 de março de 2011 (ZENIT.org) - Um enfraquecimento da fé e a diminuição do número de fiéis poderiam ser atribuídos aos abusos litúrgicos e às Missas ruins, quer dizer, às que traem seu sentido original e onde, no centro, já não está Deus, mas o homem, com a bagagem de suas perguntas existenciais.

Essa é uma ideia sustentada por Nicola Bux, teólogo e consultor da Congregação para a Doutrina da Fé e do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

Apresentado em Roma no dia 2 de março, em seu livro "Come andare a Messa e non perdere la fede" [Como ir à Missa e não perder a fé, N. do T.], Bux lança-se contra a virada antropológica da liturgia.

Bux replica a quantos criticaram Bento XVI, acusando-o de ter traído o espírito conciliar. Ao contrário – argumenta o teólogo – os documentos oficiais do Concílio Vaticano II foram traídos precisamente por essas pessoas, bispos e sacerdotes à frente, que alteraram a liturgia com “deformações ao limite do suportável”.

Participar de uma celebração eucarística pode significar, de fato, também se encontrar perante as formas litúrgicas mais estranhas, com sacerdotes que discutem economia, política e sociologia, tecendo homilias em que Deus desaparece. Proliferam os ensaios de antropologia litúrgica até reduzir a esta dimensão os próprios sinais sacramentais, “agora chamados – denuncia Bux – preferivelmente de símbolos”. A questão não é pequena: enfrentá-la implica ser tachado de anticonciliar.

Todos se sentem com o direito de ensinar e praticar uma liturgia “ao seu modo”, tanto que hoje é possível assistir, por exemplo, “à afirmação de políticos católicos que, considerando-se ‘adultos’, propõem ideias de Igreja e de moral em contraste com a doutrina”.

Entre aqueles que iniciaram esta mudança, Bux recorda Karl Rahner, quem, à raiz do Concílio, denunciava a reflexão teológica então imperante que, em sua opinião, mostrava-se pouco atenta ou esquecida da realidade do homem.

O jesuíta alemão sustentava em contrapartida que todo discurso sobre Deus brotaria da pergunta que o homem lança sobre si mesmo. Em consequência – esta é a síntese – a tarefa da teologia deveria ser falar do homem e de sua salvação, lançando as perguntas sobre si e sobre o mundo. Um pensamento teológico que, com triste evidência, foi capaz de gerar erros, o mais clamoroso dos quais é o modo de entender o sacramento, hoje já não sentido como procedente do Alto, de Deus, mas como participação em algo que o cristão já possui.

“A conclusão que Häuβling tira disso – recuerda Bux – é que o homem, nos sacramentos, acabaria por participar de uma ação que não corresponde realmente a sua exigência de ser salvo”, já que abre mão da intervenção divina. A semelhante tese “sacramental” e à derivação anexa da liturgia, responde Joseph Ratzinger, que já no dorso do volume XI, “Teologia da Liturgia”, de sua Opera omnia, escreve: “Na relação com a liturgia se decide o destino da fé e da Igreja”.

A liturgia é sagrada, de fato, se tiver suas regras. Apesar disso, se por um lado o ethos, ou seja, a vida moral, é um elemento claro para todos, por outro lado, ignora-se quase totalmente que existe também um “jus divinum”, um direito de Deus a ser adorado. “O Senhor é zeloso de suas competências – sustenta Bux –, e o culto é o que lhe é mais próprio. Em contrapartida, precisamente no campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação”.

Sublinhando, em contrapartida, que sem “jus” o culto torna-se necessariamente idolátrico, em seu livro o teólogo cita uma passagem da “Introdução ao espírito da liturgia”, de Ratzinger, que escreve: “Na aparência, tudo está em ordem e presumivelmente também o ritual procede segundo as prescrições. E no entanto é uma queda na idolatria (...), faz-se Deus descer ao nível próprio, reduzindo-o a categorias de visibilidade e compreensibilidade”.

E acrescenta: “trata-se de um culto feito à própria medida (...), converte-se em uma festa que a comunidade faz para si mesma; celebrando-a, a comunidade não faz mais que confirmar a si mesma”. O resultado é irremediável: “Da adoração a Deus se passa a um círculo que gira em torno de si mesmo: comer, beber, divertir-se”. Em sua autobiografia (Mi vida), Ratzinger declara: “Estou convencido de que a crise eclesial em que hoje nos encontramos depende em grande parte do colapso da liturgia”.

Para encerrar, uma sugestão e uma advertência. A primeira é relançar a liturgia romana “olhando para o futuro da Igreja – escreve Bux –, em cujo centro está a cruz de Cristo, como está no centro do altar: Ele, Sumo Sacerdote a quem a Igreja dirige seu olhar hoje, como ontem e sempre”. A segunda é inequívoca: “se acreditamos que o Papa herdou as chaves de Pedro – conclui –, quem não o obedece, antes de tudo em matéria litúrgica e sacramental, não entra no Paraíso”.


Fonte: www.zenit.org

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Catequese do Papa sobre São João da Cruz

Queridos irmãos e irmãs:

Há duas semanas, apresentei a figura da grande mística espanhola Teresa de Jesus. Hoje, eu gostaria de falar sobre outro importante santo dessa terra, amigo espiritual de Santa Teresa, reformador, ao lado de sua família religiosa carmelita: São João da Cruz, proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI, em 1926, a quem a tradição apelidou de Doctor mysticus, "Doutor místico".

João da Cruz nasceu em 1542, na pequena cidade de Fontiveros, perto de Ávila, em Castilla la Vieja, filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez. Sua família era muito pobre, porque o pai, de origem nobre de Toledo, tinha sido expulso de casa e deserdado por ter se casado com Catalina, uma humilde tecelã de seda. Órfão de pai em tenra idade, João, aos 9 anos, mudou-se, com sua mãe e seu irmão Francisco, a Medina del Campo, perto de Valladolid, centro comercial e cultural. Lá, frequentou o Colegio de los Doctrinos, além de realizar trabalhos humildes para as freiras da igreja-convento de Madeleine. Posteriormente, dadas as suas qualidades humanas e seu desempenho na escola, foi admitido inicialmente como enfermeiro no Hospital de la Concepción, e mais tarde no Colégio dos Jesuítas, fundado em Medina del Campo: João entrou aos 18 anos e estudou, durante três anos, humanidades, retórica e línguas clássicas. No final da sua formação, teve muito clara sua própria vocação: a vida religiosa e, entre as muitas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.

No verão de 1563, iniciou o noviciado entre as Carmelitas da cidade, tomando o nome religioso de Matias. No ano seguinte, foi destinado à prestigiada Universidade de Salamanca, onde estudou por três anos filosofia e artes. Em 1567, foi ordenado sacerdote e voltou para Medina del Campo para celebrar sua primeira Missa, cercado pelo amor de sua família. E foi precisamente lá que teve lugar o primeiro contato entre João e Teresa de Jesus. O encontro foi crucial para ambos: Teresa explicou seu plano de reforma do Carmelo, também no ramo masculino, e sugeriu a João que se unisse a ela "para maior glória de Deus"; o jovem padre ficou fascinado pelas ideias de Teresa, chegando a se tornar um grande apoio para o projeto. Os dois trabalharam juntos alguns meses, compartilhando ideais e propostas para inaugurar, o mais breve possível, a primeira casa dos Carmelitas Descalços: a abertura ocorreu em 28 de dezembro de 1568, em Duruelo, lugar solitário da província de Ávila. Com João, formavam esta primeira comunidade masculina outros três companheiros. Ao renovar sua profissão religiosa segundo a Regra primitiva, os quatro adotaram um novo nome: João foi chamado "da Cruz", nome com o qual seria depois universalmente conhecido. No final de 1572, a pedido de Santa Teresa, tornou-se confessor e vigário do mosteiro da Encarnação, em Ávila, onde a santa era priora. Foram anos de estreita colaboração e amizade espiritual, que enriqueceu ambos. Desse período datam também as mais importantes obras teresianas e os primeiros escritos de João.

A adesão à reforma carmelita não foi fácil e custou a João inclusive graves sofrimentos. O episódio mais dramático foi, em 1577, sua captura e reclusão no convento dos Carmelitas da Antiga Observância de Toledo, devido a uma acusação injusta. O santo permaneceu na prisão por seis meses, sujeito a privações e constrições físicas e morais. Aqui ele compôs, juntamente com outros poemas, o famoso "Cântico Espiritual". Finalmente, na noite entre 16 e 17 de agosto de 1578, conseguiu fugir de maneira arriscada, refugiando-se no mosteiro das Carmelitas Descalças da cidade. Santa Teresa e seus companheiros reformados comemoraram sua libertação com imensa alegria e, após um curto período de tempo para recuperar as forças, João foi destinado a Andaluzia, onde passou dez anos em vários mosteiros, especialmente em Granada. Assumiu cargos cada vez mais importantes na Ordem, até se tornar Vigário Provincial, e completou a redação de seus tratados espirituais. Depois, ele voltou para sua terra natal, como membro do governo geral da família religiosa teresiana, que já gozava de plena autonomia legal. Morou no Carmelo de Segóvia, desempenhando o cargo de superior daquela comunidade. Em 1591, teve de deixar todas as responsabilidades, pois foi destinado à nova província religiosa do México. Enquanto se preparava para a longa viagem com outros dez companheiros, retirou-se a um mosteiro solitário, perto de Jaén, onde ficou gravemente doente. João enfrentou enormes sofrimentos com paciência e serenidade exemplares. Morreu na noite entre 13 e 14 de dezembro de 1591, enquanto seus irmãos recitavam o ofício matutino. Ele se despediu deles dizendo: "Hoje vou cantar o ofício no céu". Seus restos mortais foram transferidos para Segóvia. Foi beatificado por Clemente X, em 1675, e canonizado por Bento XIII, em 1726.

João é considerado um dos maiores poetas líricos da literatura espanhola. Suas principais são "Subida ao Monte Carmelo", "Noite escura da alma", "Cântico Espiritual" e "Chama viva de amor".

No "Cântico Espiritual", São João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a progressiva possessão gozosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é amada por Ele. A "Chama viva de amor" continua nesta perspectiva, descrevendo mais detalhadamente o estado de união transformadora com Deus. O exemplo utilizado por João é sempre o do fogo, que quanto mais arde e consome a lenha, mais se torna incandescente, até converter-se em chama: assim é o Espírito Santo, que, durante a noite escura, purifica e "limpa" a alma e, ao longo do tempo, a ilumina e esquenta como se fosse uma chama. A vida da alma é uma contínua festa do Espírito Santo, que permite entrever a glória da união com Deus na eternidade.

A "Subida ao Monte Carmelo" apresenta o itinerário espiritual do ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar o cume da perfeição cristã, simbolizada pelo cume do Monte Carmelo. Esta purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, em colaboração com a ação divina, para libertar a alma de todo apego ou afeto contrário à vontade de Deus. A purificação, que, para alcançar a união de amor com Deus, deve ser total, começa na via dos sentidos e prossegue com aquela que se obtém pelas três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade.

A "Noite escura", descreve o aspecto "passivo", ou seja, a intervenção de Deus no processo de "purificação" da alma. O esforço humano, de fato, por si só é incapaz de chegar às raízes profundas das más inclinações e maus costumes da pessoa: pode freá-las, mas não desenraizá-las totalmente. Para fazê-lo, é necessária a ação especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe para a união de amor com Ele. São João define esta purificação como "passiva", justamente porque, mesmo que aceita pela alma, é realizada pela ação misteriosa do Espírito Santo, que, como uma chama de fogo, consome toda impureza. Neste estado, a alma está sujeita a todo tipo de provas, como se estivesse em uma noite escura.

Estas indicações sobre as principais obras do santo nos ajudam a chegar mais perto dos pontos sobressalentes de sua vasta e profunda doutrina mística, que tem como objetivo descrever um caminho seguro para chegar à santidade - o estado de perfeição ao qual Deus chama todos nós. De acordo com João da Cruz, tudo o que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, podemos chegar à descoberta d'Aquele que deixou nelas seu selo. A fé, porém, é a única fonte dada ao homem para conhecer a Deus como Ele é em si mesmo, como o Deus Uno e Trino. Tudo o que Deus queria comunicar ao homem, já disse em Jesus Cristo, o Verbo feito carne. Ele, Jesus Cristo, é o caminho único e definitivo até o Pai (cf. Jo 14,6). Qualquer coisa criada não é nada comparada com Deus e nada vale fora d'Ele; por conseguinte, para alcançar o amor perfeito de Deus, qualquer outro amor deve ser conformado, em Cristo, ao amor divino. Daí a insistência de São João da Cruz na necessidade da purificação e do esvaziamento interior para transformar-se em Deus, que é a única meta da perfeição. Esta "purificação" não é mera ausência física de coisas ou de sua utilização; o que torna a alma pura e livre, na verdade, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo deve ser colocado em Deus como centro e fim da vida. O longo e laborioso processo de purificação exige esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus: tudo que o homem pode fazer é "dispor-se" para estar aberto à ação divina e não colocar obstáculos a ela. Vivendo as virtudes teologais, o homem se eleva e dá valor ao seu próprio esforço. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade segue o ritmo do trabalho de purificação e da progressiva união com Deus, até transformar-se n'Ele. Quando se alcança este objetivo, a alma mergulha na própria vida trinitária, de forma que São João diz que esta chega a amar a Deus com o mesmo amor com que Ele ama, porque a ama no Espírito Santo. Assim, o Doutor Místico sustenta que não há verdadeira união de amor com Deus se não culminar com a união trinitária. Neste estado supremo, a alma santa conhece tudo em Deus e já não deve passar pelas criaturas para chegar a Ele. A alma já se sente inundada pelo amor divino e regozija-se totalmente nele.

Queridos irmãos e irmãs, no final, a pergunta que não quer calar: este santo, com sua alta mística, com esse árduo caminho até o cume da perfeição, tem algo a dizer a nós, ao cristão normal que vive nas circunstâncias da vida hoje, ou é um exemplo, um modelo somente para algumas almas escolhidas que podem realmente empreender este caminho da purificação, da ascensão mística? Para encontrar a resposta, devemos primeiro observar que a vida de São João da Cruz não era um "voar pelas nuvens místicas", senão que foi uma vida dura, muito prática e concreta, tanto como reformador da ordem, onde encontrou muitas oposições, quanto como superior provincial, ou na prisão dos seus irmãos na religião, onde foi exposto a insultos incríveis e agressões físicas. Foi uma vida dura, mas precisamente nos últimos meses na prisão, ele escreveu uma de suas obras mais belas. E assim entendemos que o caminho com Cristo, esse ir com Cristo, "o Caminho", não é um peso adicional à carga já bastante difícil da nossa vida; não é algo que tornaria ainda mais pesado este fardo, e sim algo completamente diferente, é uma luz, uma força que nos ajuda a carregar esse peso. Se um homem tem em si um grande amor, este amor quase lhe dá asas, e então suporta mais facilmente todos os aborrecimentos da vida, porque carrega dentro de si esta grande luz; esta é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Esse deixar-se amar é a luz que nos ajuda a carregar o peso de cada dia. E a santidade não é obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta "abertura": abrir as janelas da nossa alma para que a luz de Deus possa entrar; não esquecer de Deus, porque precisamente na abertura à sua luz, encontramos força, a alegria dos redimidos. Oremos ao Senhor para que nos ajude a encontrar esta santidade, para que nos ajude a deixar-nos amar por Deus, já que esta é a vocação de todos nós e a verdadeira redenção. Obrigado.


Fonte: www.Zenit.org

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Papa Bento XVI autoriza promulgação das virtudes heroicas da Serva de Deus Francisca de Paula Jesus

Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 14-01-2011, Gaudium Press) Além da assinatura do decreto comprovando milagre atribuído à intercessão de João Paulo II, o Santo Padre autorizou hoje, também, a Congregação para a Causa do Santos a promulgar as virtudes heroicas de um leiga brasileira: a Serva de Deus Francisca de Paula Jesus, mais conhecida como "Nhá Chica. A religiosa brasileira, cuja causa de beatificação começou a tramitar no Vaticano em 2007, ostentará agora o título canônico de Venerável.

Para se tornar beata, será necessário que o Vaticano reconheça um milagre ocorrido pela intercessão de "Nhá Chica". Esse milagre teria acontecido em 1995, quando a professora Analúcia Meirelles Leite, moradora de Caxambu, em Minas Gerais, curou-se de um problema congênito muito grave no coração, sem passar por cirurgia, somente através das orações para a Serva de Deus brasileira.

Nhá Chica faleceu em 1895 e sua vida foi passada quase em sua totalidade no município de Baependi, Minas Gerais. Foi na cidade que ela dedicou sua vida às obras da Igreja e à ajuda aos mais necessitados. Analfabeta, pedia para que lessem para ela as Sagradas Escrituras.

Mesmo sem saber ler e escrever compôs uma novena a Nossa Senhora da Conceição. Por sua devoção à Virgem, construiu uma pequena igreja dedicada à Mão e Deus ao lado da casa onde morava. Igreja que, anos mais tarde, transformou-se no Santuário Nossa Senhora da Conceição.


Fonte: http://www.gaudiumpress.org/view/show/22684-papa-bento-xvi-autoriza-promulgacao-das-virtudes-heroicas-de-serva-de-deus-brasileira

sábado, 8 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Os Santos e a interpretação da Escritura

48. A interpretação da Sagrada Escritura ficaria incompleta se não se ouvisse também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus, ou seja, os Santos.[162] De facto, «viva lectio est vita bonorum».[163] Realmente a interpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua.

Certamente não é por acaso que as grandes espiritualidades, que marcaram a história da Igreja, nasceram de uma explícita referência à Escritura. Penso, por exemplo, em Santo Antão Abade, que se decide ao ouvir esta palavra de Cristo: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céus; depois, vem e segue-Me» (Mt 19, 21).[164] Igualmente sugestivo é São Basílio Magno, quando, na sua obra Moralia, se interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio do fiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for».[165] São Bento, na sua Regra, remete para a Escritura como «norma rectíssima para a vida do homem».[166] São Francisco de Assis – escreve Tomás de Celano – «ao ouvir que os discípulos de Cristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazer alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares de calçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo: Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!».[167] E Santa Clara de Assis reproduz plenamente a experiência de São Francisco: «A forma de vida da Ordem das Irmãs pobres (…) é esta: observar o santo Evangelho do Senhor nosso Jesus Cristo».[168] Por sua vez, São Domingos de Gusmão «em toda a parte se manifestava como um homem evangélico, tanto nas palavras como nas obras»,[169] e tais queria que fossem também os seus padres pregadores: «homens evangélicos».[170] Santa Teresa de Ávila, nos seus escritos, recorre continuamente a imagens bíblicas para explicar a sua experiência mística, e lembra que o próprio Jesus lhe manifesta que «todo o mal do mundo deriva de não se conhecer claramente a verdade da Sagrada Escritura».[171] Santa Teresa do Menino Jesus encontra o Amor como sua vocação pessoal, quando perscruta as Escrituras, em particular os capítulos 12 e 13 da Primeira Carta aos Coríntios;[172] e a mesma Santa assim nos descreve o fascínio das Escrituras: «Apenas lanço o olhar sobre o Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr».[173] Cada Santo constitui uma espécie de raio de luz que brota da Palavra de Deus: assim o vemos também em Santo Inácio de Loyola na sua busca da verdade e no discernimento espiritual, em São João Bosco na sua paixão pela educação dos jovens, em São João Maria Vianney na sua consciência da grandeza do sacerdócio como dom e dever; em São Pio de Pietrelcina no seu ser instrumento da misericórdia divina; em São Josemaria Escrivá na sua pregação sobre a vocação universal à santidade; na Beata Teresa de Calcutá missionária da caridade de Deus pelos últimos; e nos mártires do nazismo e do comunismo representados, os primeiros, por Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), monja carmelita, e os segundos pelo Beato Aloísio Stepinac, Cardeal Arcebispo de Zagrábia.

49. Assim a santidade relacionada com a Palavra de Deus inscreve-se de certo modo na tradição profética, na qual a Palavra de Deus se serve da própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efectuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus.

Tivemos um testemunho directo desta ligação entre Palavra de Deus e santidade durante a XII Assembleia do Sínodo quando, a 12 de Outubro na Praça de São Pedro, se realizou a canonização de quatro novos Santos: o sacerdote Caetano Errico, fundador da Congregação dos Missionários dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria; a Irmã Maria Bernarda Bütler, nascida na Suíça e missionária no Equador e na Colômbia; a Irmã Afonsa da Imaculada Conceição, primeira santa canonizada nascida na Índia; a jovem leiga equatoriana Narcisa de Jesus Martillo Morán. Com a sua vida, deram testemunho ao mundo e à Igreja da perene fecundidade do Evangelho de Cristo. Pedimos ao Senhor que, por intercessão destes Santos canonizados precisamente nos dias da assembleia sinodal sobre a Palavra de Deus, a nossa vida seja aquele «terreno bom» onde o Semeador divino possa semear a Palavra para que produza em nós frutos de santidade, a «trinta, sessenta, e cem por um» (Mc 4, 20).


Fonte: Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini.