segunda-feira, 9 de abril de 2012

As Sementes da Esperança de Tolkien e Guareschi

Por Cecilia Barella.
Tradução Minha.

"Senhor, que é este vento de loucura? [...] O homem, penso eu, está destruindo todo o seu patrimônio espiritual. A única riqueza que em milhares de séculos tinham acumulado. Um dia, não muito distante, se encontrará como o bruto das cavernas. As cavernas serão arranha-céus cheios de máquinas maravilhosas, mas o espírito do homem será aquele do bruto das cavernas. [...]Senhor, se é isso que acontecerá, o que podemos fazer?"
O Cristo sorriu: "O que faz o agricultor quando o rio varre suas margens e invade o campo: é preciso salvar as sementes. Quando o rio for devolvido ao seu leito, a terra ressurgirá e o sol a secará. Se o agricultor houver salvo as sementes, poderá lançá-la na terra ainda mais fértil pelo lodo do rio, e a semente produzirão frutos, e a espigas inchadas e douradas darão aos homens pão, vida e esperança. É preciso salvar a semente: a fé."

O trecho é tomado do romance "Don Camillo e Don Chichi"(1969) de Giovanni Guareschi (a primeira edição foi publicada com o título "Don Camillo e os jovens de hoje").

Um outro autor Católico, J.R.R. Tolkien, na Inglaterra, expressa conceito similar em uma narrativa de estilo diferente, épico, fabuloso e atemporal. O Senhor dos Anéis narra o ano em que a Terra Média é atravassada pela Guerra do Anél. Como Guareschi, Tolkien viveu duas guerras mundiais, e também para ele o maligno "Tem um cérebro feito de metal e engrenagens, e não se preocupa pelas coisas que crescem". Esta última expressão (Coisas que crescem) ocorre várias vezes no livro, pela boca de Barbárvore e, no final, de Eowyn curada. Mas é o Hobbit Sam, o jardineiro companheiro de viagem de Frodo, o personagem tolkeniano que acima de tudo encarna este espírito. E para ele, os Elfos, que estão prestes a deixar a Terra, doaram as sementes coletadas em seu reino para repovoar o verde e pacífico Condado que - os hobbits ainda não sabiam - seria literalmente devastado ao final da guerra. "Para você, pequeno jardinheiro e amante das árvores", disse a Sam, "Só tenho um pequeno presente". Eles entregaram uma caixa simples de madeira cinza, totalmente sem adornos, com uma única runa de prata na tampa. "Este G é de Galadriel" disse a Senhora, "Mas também pode ser a inicial de jardim no seu idioma".¹ A caixa contém terra do meu pomar, e todas as bençãos que Galadriel ainda tem e pode transmitir. Não te ajudará a percorrer sempre o caminho certo, nem te defenderá contra as armadilhas, mas se você a conservar, e um dia retornar finalmente para sua casa, então talvez seja recompensado. Mesmo que encontre tudo desnudo e abandonado, quando espalhar na terra o conteúdo da caixa, poucos jardins florirão como o seu na Terra Média.

Claro que isso não se trata simplesmente de uma paixão pela jardinagem. Em Tolkien e em Guareschi ecoam cânticos evangélicos como as Bem-Aventuranças ("Bem-Aventurados os mansos porquê herdarão a terra") e as muitas parábolas baseadas na imagem da semente: a parábola do semeador e do solo fértil e rochoso, aquela da semente de mostarda tão pequena quanto frondosa quando cresce, que Jesus usa várias vezes para descrever tanto o Reino de Deus quanto o poder da Fé. As sementes são facilmente metáforas de nascimento e renascimento, e na cultura Cristã também de ressureição, portanto de Páscoa. São Boaventura chama a cruz de "Lignum Vitae" porquê no Cristianismo é simbolo mais da ressureição do que da paixão. O imaginário Medieval fundiu a figura da árvore com que foi feita a cruz com a mais antiga imagem da árvore cósmica, ou árvore da vida - de fato presente em todas as culturas. Uma das lendas mais famosas e populares do tempo (da Escandinávia à Espanha e a Grécia) era aquela segundo a qual a árvore da cruz nasceu de três sementes provenientes do Paraíso: pinheiro, palmeira e cipreste - de acordo com Godofredo de Viterbo, no final do século XII - com folhagens diferentes mas que depois cresceram juntas em uma única planta, como A Trindade. As sementes, portanto, são sinais de esperança para o homem, e de vida, em particular de uma vida baseada na harmonia.

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1 – Jardim em italiano se escreve giardino.

sábado, 20 de agosto de 2011

Papa anuncia que irá proclamar novo doutor da Igreja




Durante a Missa para os seminaristas, na manhã deste sábado, 20, na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em Madri, na Espanha, o Papa Bento XVI anunciou que vai declarar São João de Ávila como novo Doutor da Igreja.

“Com grande alegria, no marco da santa igreja Catedral de Santa Maria a Real da Almudena, quero anunciar agora ao povo de Deus que, acolhendo os pedidos do Senhor Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, o Eminentíssimo Cardeal Antônio Maria Rouco Varela, Arcebispo de Madri, dos outros Irmãos no Episcopado da Espanha, bem como de um grande número de Arcebispos e Bispos de outras partes do mundo, e de muitos fiéis, declararei, proximamente, São João de Ávila, presbítero, Doutor da Igreja”, disse o Papa.

Ao divulgar esta notícia, o Pontífice expressou seu desejo de colocar as palavras e a vida desde santo como exemplo para os seminaristas ali presentes.

“Convido todos a dirigirem o olhar para ele, e confio à sua intercessão os Bispos da Espanha e de todo o mundo, bem como os presbíteros e seminaristas para que, perseverando na mesma fé que ele ensinou, possam modelar seu coração conforme os sentimentos de Jesus Cristo, o Bom Pastor, a quem seja dada toda glória e honra por todos os séculos dos séculos”, destacou Bento XVI.

São João de Ávila

João de Ávila, nasceu em Almodóvar del Campo, em Castilla Nueva. Estudou filosofia e teologia na Universidade de Alcalá. É considerado como um dos mais influentes Santos da Espanha do século XVI. Foi amigo de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (jesuítas) e conselheiro espiritual da Santa Teresa, se atribui a ele também a conversão de São Francisco de Borja e São João de Deus.

Ordenado sacerdote mostrou tal eloquência, que o Arcebispo de Sevilha pediu que se dedicasse à evangelização em seu país. Trabalhou durante 9 anos nas missões de Andaluzia.

Dedicou-se a pregar o Evangelho em todas as regiões da Espanha, principalmente nas cidades. Os mais famosos de seu escritos são suas cartas e o tratado: “Audi Filia”.

Foi beatificado em 1894 e canonizado pelo Papa Paulo VI em 31 de maio de 1970. Sua festa se celebra no dia 10 de maio.


Fonte: Canção Nova Notícias

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Alguns Pensamentos de S. Giuseppe Moscati




"A vida é um piscar de olho: honras, triunfos, riquezas e ciências tombam, diante da realização do grito do Gênesis, do grito lançado por Deus contra o homem culpado: tu morrerás!
Mas a vida não acaba com a morte, continua com um jeito melhor. Para todos é prometido, após a redenção do mundo, o dia que nos reunirá a nossos entes falecidos, e que nos reconduzirá ao supremo Amor!" [De carta ao advogado Mariconda, que perdeu a irmã. 27 de fevereiro 1919]

"Mas a vida foi definida um relâmpago no eterno. E nossa humanidade, por mérito da dor que a recheia, e da qual se saciou Aquele que vestiu nossa carne, transcende a matéria e nos leva desejar uma felicidade além do mundo. Bem-aventurados aqueles que seguem essa tendência da consciência, e olham para o além, onde os afetos terrenos, que pareciam precocemente quebrados, serão reunidos". [Da carta à Senhorita Carlotta Petravella, que perdeu a mãe. 20 de janeiro 1920]

"Lembras que, seguindo a medicina, assumiste a responsabilidade de uma sublime missão. Persevera, com Deus no coração, com os ensinamentos de teu pai e de tua mãe sempre na memória, com amor e piedade para os derrelitos, com fé e entusiasmo, surdo aos elogios e críticas, impassível à inveja, disposto só ao bem" [Da carta ao Dr. Giuseppe Biondi, 4 de setembro 1921]

"Seja o que for, lembra duas coisas: Deus não abandona ninguém. Quanto mais te sentires só, ignorado, vilipendiado, incompreendido e quando pensares sucumbir ao peso de uma grave injustiça, terás a sensação de uma força infinita e arcana, que te tornará capaz de propósitos bons e viris, de cuja potência te maravilharás, quando tornares sereno. E esta força é Deus!" [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino, 6 de outubro 1921]

"Os doentes são as imagens de Jesus Cristo. Muitos malvados, delinqüentes, blasfemadores, acabam de chegar ao hospital por disposição da misericórdia de Deus, que os quer salvos! Nos hospitais a missão das irmãs, médicos, enfermeiros, é de colaborar a esta infinita misericórdia, ajudando, perdoando, e se sacrificando." [Folhinha escrita por Moscati, com data de 17 de janeiro de 1922, e encontrada num livro após sua morte]

"Mesmo longe, não deixes de cultivar e rever cada dia teus conhecimentos. O progresso fica numa contínua critica de quanto aprendemos. Uma só ciência é inabalável e imutável, aquela revelada por Deus, a ciência do além!. Em todas suas obras, olhe para o Céu e à eternidade da vida e da alma, e teu rumo será bem diferente de como seria sugerido pelas puras considerações humanas, e tua atividade será inspirada ao bem". [Da carta ao Dr. Consoli, aluno de Moscati, que devia deixar Nápoles. 22 de julho 1922]

"Meu Jesus, amor! Teu amor me torna sublime; teu amor me santifica, me leva não a uma criatura só, mas a todas as criaturas, à infinita beleza de todos os seres, criados à tua imagem e semelhança!" [Oração escrita por Moscati, de 5 de junho de 1922, encontrada pela irmã Nina]

"Não a ciência, mas a caridade transformou o mundo, em algumas épocas; somente poucas pessoas passaram à história por causa da ciência; mas todos poderão ficar eternos, símbolo da eternidade da vida, em que a morte é só uma etapa, uma metamorfose para uma ascensão maior, se dedicarem-se ao bem.
Sempre está vivo no meu coração a amargura por saber-te longe; e somente me conforta a esperança que tu tenhas guardado em ti algo de mim; não porque vale nada, mas por aquele conteúdo espiritual que me esforcei de guardar e difundir ao meu redor: tarefa sublime, mas tão inatingível pelas minhas pobres forças.! [Da carta ao Dr. Antonio Guerricchio, 22 de julho 1922]

"Ama a verdade; mostra-te qual és, sem ficções, medos e precauções. Se a vida te custar perseguição, aceita-a; e se for o tormento, suporta-o. E se para a verdade precisares sacrificar a ti mesmo e tua vida, seja forte no sacrifício." [Bilhete escrito no 17 de outubro 1992, por Giuseppe Moscati]

"Lembra que viver é missão, é dever, é dor! Cada um de nós deve ter seu lugar de combate...
Lembra de te preocupar não só do corpo, mas também das almas que gemem, que te procuram. Quantas dores saberás aliviar mais facilmente com o conselho, e descendo ao espírito, mais do que as frias receitas a ser entregues para o farmacêutico! Se alegre, porque grande será sua recompensa; mas precisa dar exemplo de tua elevação a Deus para aqueles que te rodeiam". [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino. Ascensão 1923]

"Acreditei que todos os jovens merecedores, encaminhados entre as esperanças, sacrifícios, anseios de suas famílias, à via da medicina nobilíssima, tivessem o direito a se aperfeiçoarem, lendo um livro que não foi imprimido preto no branco, mas que por capa tem as camas hospitalares e as salas de laboratório, e por conteúdo a dolorida carne dos homens e o material científico, livro que precisa ser lido com infinito amor e grande sacrifício ao próximo.
Pensei que fosse uma dívida de consciência instruir os jovens, aborrecendo o costume de guardar com mistério ciumento o fruto da própria experiência, mas revela-lo a eles..." [Da carta ao Prof. Francesco Pentimalli. 11 de setembro 19239]

"Todos os jovens deveriam compreender que na prática da continência está o melhor modo de se prevenir da maior doença transmissível... Tendo seu espírito e seu coração longe da imoralidade, com um exercício de renúncia e de sacrifício, deveriam jurar de conceder sua maturidade e sanidade sexual somente ao ser unicamente amado." [Do prefácio de G. Moscati a um livro de Giuseppe De Giovanni s.j. e do Prof. Mario Mazzeo, com o título: L’eugenica. 1925]

"Tenho aqui na mesinha, entre as primeiras flores da primavera, o retrato de tua filha, e paro, enquanto escrevo, a meditar sobre a caducidade das coisas humanas. Beldade, todo encanto da vida passa... Fica eterno só o amor, causa de toda obra boa, que sobrevive a nós, que é esperança e religião, porque o amor é Deus.
Satanás tentou poluir também o amor terreno, mas Deus o purificou pela morte. Grandiosa morte que não é fim, mas princípio do sublime e do divino, diante dele estas flores e beleza são nada! Teu anjo, tirado em seus verdes anos, como sua dileta amiga, encontrada nos últimos dias, a bem-aventurada Teresa, do céu protege a ti e a sua mãe..."
[Da carta ao Escrivão De Magistris, cuja jovem filha faleceu. 7 de março 1924. * José Moscati era muito devoto à então bem aventurada Teresa do Menino Jesus (S. Teresa de Lisieux). Fale dela em algumas suas cartas e tinha em seu quarto uma sua imagem. Sobre isso pode-se ler o artigo de Giuseppe Samà s.j.: S. Teresa de Lisieux e S. José Moscati, dois grandes santos de nosso tempo.]

"Esta noite li a sua tese. Foi um grande sucesso... A comissão toda aplaudiu. Veja que quem não abandona Deus, terá sempre um guia na vida, segura e reta. Não prevalecerão desvios, paixões contra aquele que do trabalho e da ciência – dos quais Initium est timor Domini – fez seu ideal." [Da carta ao Dr. Francesco Pansini. 10 de março 1926]

"Que a matéria seja animada por muitíssimas e profundas energias que a envolvem em suas atividades e na progressiva complexidade de suas formas, nada se opõe a acolher, mas precisa também lembrar que este princípio de espiritualidade... esta ordem maravilhosa, que se organiza na matéria até alcançar os mais altos topos de sua elaborada organização, não seja outra coisa que o atestado de um Deus absconditus que regula com suprema inteligência este soberbo edifício sobre o qual se eleva a vida, vida que acontece por causa das leis da Alta Sabedoria que tudo move; ainda mais maravilhosas quando elas governam não somente os cosmos colossais, mas também a mais delicada trama do mais microscópico elemento." [Pensamento de Moscati referido pelo Prof. Pietro Castellino após a morte do Santo]

" A necessidade de eternizar no mármore e no bronze as grandes figuras falecidas, e celebrar sua obra, demonstra que o pensamento e o espírito humano são eternos.
Abaixo de cada cruz e cada haste deste cemitério, onde parece que haja só ossos inermes e pó, há a lembrança de um coração que viveu do amor infinito e sofreu uma imensa dor; tem a sede de um espírito que não pode ficar extinguido." [Palavras de Moscati para a dedicação de um busto a Giovanni Paladino, no cemitério de Poggioreale]

"Amamos a Deus sem medida, quer dizer, sem medida na dor e sem medida no amor... Coloquemos todo nosso afeto, não somente nas coisas que Deus quer, mas na vontade do mesmo Deus que as determina." [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo]

"Exercitemo-nos quotidianamente na caridade. Deus é caridade: quem está na caridade está em Deus e Deus está nele. Não esqueçamos de fazer cada dia, aliás, cada instante, oferenda de nossas ações a Deus, cumprindo tudo por amor a ele." [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo]

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Fonte: http://www.moscati.it/Brasil.html

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Homilia do Papa Bento XVI nos 60 anos de sacerdócio




Santa Missa no 60º aniversário de Ordenação Sacerdotal de Bento XVI
e entrega do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos

Basílica de São Pedro
Quarta-feira, 29 de junho de 2011


Amados irmãos e irmãs!


"Non iam servos, sed amicos"
- "Já não vos chamo servos, mas amigos" (cf. Jo 15, 15). Passados sessenta anos da minha Ordenação Sacerdotal, sinto ainda ressoar no meu íntimo estas palavras de Jesus, que o nosso grande Arcebispo, o Cardeal Faulhaber, com voz já um pouco fraca, mas firme, dirigiu a nós, novos sacerdotes, no final da cerimônia da Ordenação. Segundo o ordenamento litúrgico daquele tempo, esta proclamação significava então a explícita concessão aos novos sacerdotes do mandato de perdoar os pecados. "Já não sois servos, mas amigos": eu sabia e sentia que esta não era, naquele momento, apenas uma frase "de cerimônia"; e que era mais do que uma mera citação da Sagrada Escritura. Estava certo disto: neste momento, Ele mesmo, o Senhor, di-la a mim de modo muito pessoal. No Batismo e na Confirmação, Ele já nos atraíra a Si, acolhera-nos na família de Deus. Mas o que estava a acontecer naquele momento ainda era algo mais. Ele chama-me amigo. Acolhe-me no círculo daqueles que receberam a sua palavra no Cenáculo; no círculo daqueles que Ele conhece de um modo muito particular e que chegam assim a conhecê-Lo de modo particular. Concede-me a faculdade, que quase amedronta, de fazer aquilo que só Ele, o Filho de Deus, pode legitimamente dizer e fazer: Eu te perdoo os teus pecados. Ele quer que eu – por seu mandato – possa pronunciar com o seu "Eu" uma palavra que não é meramente palavra mas ação que produz uma mudança no mais íntimo do ser. Sei que, por detrás de tais palavras, está a sua Paixão por nossa causa e em nosso favor. Sei que o perdão tem o seu preço: na sua Paixão, Ele desceu até ao fundo tenebroso e sórdido do nosso pecado. Desceu até à noite da nossa culpa, e só assim esta pode ser transformada. E, através do mandato de perdoar, Ele permite-me lançar um olhar ao abismo do homem e à grandeza do seu padecer por nós, homens, que me deixa intuir a grandeza do seu amor. Diz-me Ele em confidência: "Já não és servo, mas amigo". Ele confia-me as palavras da Consagração na Eucaristia. Ele considera-me capaz de anunciar a sua Palavra, de explicá-la retamente e de a levar aos homens de hoje. Ele entrega-Se a mim. "Já não sois servos, mas amigos": trata-se de uma afirmação que gera uma grande alegria interior mas ao mesmo tempo, na sua grandeza, pode fazer-nos sentir ao longo dos decênios calafrios com todas as experiências da própria fraqueza e da sua bondade inexaurível.

"Já não sois servos, mas amigos": nesta frase está encerrado o programa inteiro de uma vida sacerdotal. O que é verdadeiramente a amizade?
Idem velle, idem nolle – querer as mesmas coisas e não querer as mesmas coisas: diziam os antigos. A amizade é uma comunhão do pensar e do querer. O Senhor não se cansa de nos dizer a mesma coisa: "Conheço os meus e os meus conhecem-Me" (cf. Jo 10, 14). O Pastor chama os seus pelo nome (cf. Jo 10, 3). Ele conhece-me por nome. Não sou um ser anônimo qualquer, na infinidade do universo. Conhece-me de modo muito pessoal. E eu? Conheço-O a Ele? A amizade que Ele me dedica pode apenas traduzir-se em que também eu O procure conhecer cada vez melhor; que eu, na Escritura, nos Sacramentos, no encontro da oração, na comunhão dos Santos, nas pessoas que se aproximam de mim mandadas por Ele, procure conhecer sempre mais a Ele próprio. A amizade não é apenas conhecimento; é sobretudo comunhão do querer. Significa que a minha vontade cresce rumo ao "sim" da adesão à d’Ele. De fato, a sua vontade não é uma vontade externa e alheia a mim mesmo, à qual mais ou menos voluntariamente me submeto ou então nem sequer me submeto. Não! Na amizade, a minha vontade, crescendo, une-se à d’Ele: a sua vontade torna-se a minha, e é precisamente assim que me torno de verdade eu mesmo. Além da comunhão de pensamento e de vontade, o Senhor menciona um terceiro e novo elemento: Ele dá a sua vida por nós (cf. Jo 15, 13; 10, 15). Senhor, ajudai-me a conhecer-Vos cada vez melhor! Ajudai-me a identificar-me cada vez mais com a vossa vontade! Ajudai-me a viver a minha existência, não para mim mesmo, mas a vivê-la juntamente convoco para os outros! Ajudai-me a tornar-me sempre mais vosso amigo!

Essa palavra de Jesus sobre a amizade situa-se no contexto do discurso sobre a videira. O Senhor relaciona a imagem da videira com uma tarefa dada aos discípulos: "Eu vos destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça" (Jo 15, 16). A primeira tarefa dada aos discípulos, aos amigos, é pôr-se a caminho – destinei, para que vades –, sair de si mesmos e ir ao encontro dos outros. A par dessa, podemos ouvir também a frase que o Ressuscitado dirige aos seus e que aparece na conclusão do Evangelho de Mateus: "Ide fazer discípulos de todas as nações…" (cf. Mt 28, 19). O Senhor exorta-nos a superar as fronteiras do ambiente onde vivemos e levar ao mundo dos outros o Evangelho, para que permeie tudo e, assim, o mundo se abra ao Reino de Deus. Isto pode trazer-nos à memória que o próprio Deus saiu de Si, abandonou a sua glória, para vir à nossa procura e trazer-nos a sua luz e o seu amor. Queremos seguir Deus que Se põe a caminho, vencendo a preguiça de permanecer cômodos em nós mesmos, para que Ele mesmo possa entrar no mundo.

Depois da palavra sobre o pôr-se a caminho, Jesus continua: dai fruto, um fruto que permaneça! Que fruto espera Ele de nós? Qual é o fruto que permanece? Sabemos que o fruto da videira são as uvas, com as quais depois se prepara o vinho. Por agora detenhamo-nos sobre esta imagem. Para que as uvas possam amadurecer e tornar-se boas, é preciso o sol mas também a chuva, o dia e a noite. Para que deem um vinho de qualidade, precisam de ser pisadas, há que aguardar com paciência a fermentação, tem-se de seguir com cuidadosa atenção os processos de maturação. Características do vinho de qualidade são não só a suavidade, mas também a riqueza das tonalidades, o variado aroma que se desenvolveu nos processos da maturação e da fermentação. E por acaso não constitui já tudo isto uma imagem da vida humana e, de modo muito particular, da nossa vida de sacerdotes? Precisamos do sol e da chuva, da serenidade e da dificuldade, das fases de purificação e de prova mas também dos tempos de caminho radioso com o Evangelho. Num olhar de retrospectiva, podemos agradecer a Deus por ambas as coisas: pelas dificuldades e pelas alegrias, pela horas escuras e pelas horas felizes. Em ambas reconhecemos a presença contínua do seu amor, que incessantemente nos conduz e sustenta.

Agora, porém, devemos interrogar-nos: de que gênero é o fruto que o Senhor espera de nós? O vinho é imagem do amor: este é o verdadeiro fruto que permanece, aquele que Deus quer de nós. Mas não esqueçamos que, no Antigo Testamento, o vinho que se espera das uvas boas é sobretudo imagem da justiça, que se desenvolve numa vida segundo a lei de Deus. E não digamos que esta é uma visão veterotestamentária, já superada. Não! Isto permanece sempre verdadeiro. O autêntico conteúdo da Lei, a sua summa, é o amor a Deus e ao próximo. Este duplo amor, porém, não é qualquer coisa simplesmente doce; traz consigo o peso da paciência, da humildade, da maturação na educação e assimilação da nossa vontade à vontade de Deus, à vontade de Jesus Cristo, o Amigo. Só deste modo, tornando verdadeiro e reto todo o nosso ser, é que o amor se torna também verdadeiro, só assim é um fruto maduro. A sua exigência intrínseca, ou seja, a fidelidade a Cristo e à sua Igreja requer sempre que se realize também no sofrimento. É precisamente assim que cresce a verdadeira alegria. No fundo, a essência do amor, do verdadeiro fruto, corresponde à palavra relativa ao pôr-se a caminho, ao ir: amor significa abandonar-se, dar-se; leva consigo o sinal da cruz. Neste contexto, disse uma vez Gregório Magno: Se tendeis para Deus, tende cuidado que não O alcanceis sozinhos (cf. H Ev 1, 6, 6: PL 76, 1097s). Trata-se de uma advertência que nós, sacerdotes, devemos ter intimamente presente cada dia.

Queridos amigos, talvez me tenha demorado demasiado com a recordação interior dos sessenta anos do meu ministério sacerdotal. Agora é tempo de pensar àquilo que é próprio deste momento.

Na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, antes de mais nada dirijo a minha mais cordial saudação ao Patriarca Ecumênico Bartolomeu I e à Delegação por ele enviada, cuja aprazível visita na ocasião feliz da festa dos Santos Apóstolos Padroeiros de Roma vivamente agradeço. Saúdo também os Senhores Cardeais, os Irmãos no Episcopado, os Senhores Embaixadores e as autoridades civis, como também os sacerdotes, os colegas da minha Missa Nova, os religiosos e os fiéis leigos. A todos agradeço a presença e a oração.

Aos Arcebispos Metropolitanos nomeados depois da última festa dos grandes Apóstolos, será agora imposto o pálio. Este, que significa? Pode recordar-nos em primeiro lugar o jugo suave de Cristo que nos é colocado aos ombros
(cf. Mt 11, 29-30). O jugo de Cristo coincide com a sua amizade. É um jugo de amizade e, consequentemente, um "jugo suave", mas por isso mesmo também um jugo que exige e plasma. É o jugo da sua vontade, que é uma vontade de verdade e de amor. Assim, para nós, é, sobretudo, o jugo de introduzir outros na amizade com Cristo e de estar à disposição dos outros, de cuidarmos deles como Pastores. E assim chegamos a um novo significado do pálio: este é tecido com a lã de cordeiros, que são benzidos na festa de Santa Inês. Deste modo recorda-nos o Pastor que Se tornou, Ele mesmo, Cordeiro por nosso amor. Recorda-nos Cristo que Se pôs a caminho pelos montes e descampados, aonde o seu cordeiro – a humanidade – se extraviara. Recorda-nos como Ele pôs o cordeiro, ou seja, a humanidade – a mim – aos seus ombros, para me trazer de regresso a casa. E assim nos recorda que, como Pastores ao seu serviço, devemos também nós carregar os outros, pô-los por assim dizer aos nossos ombros e levá-los a Cristo. Recorda-nos que podemos ser Pastores do seu rebanho, que continua sempre a ser d’Ele e não se torna nosso. Por fim, o pálio significa também, de modo muito concreto, a comunhão dos Pastores da Igreja com Pedro e com os seus sucessores: significa que devemos ser Pastores para a unidade e na unidade, e que só na unidade, de que Pedro é símbolo, guiamos verdadeiramente para Cristo.

Sessenta anos de ministério sacerdotal! Queridos amigos, talvez me tenha demorado demais nos pormenores. Mas, nesta hora, senti-me impelido a olhar para aquilo que caracterizou estes decênios. Senti-me impelido a dizer-vos – a todos os presbíteros e Bispos, mas também aos fiéis da Igreja – uma palavra de esperança e encorajamento; uma palavra, amadurecida na experiência, sobre o fato que o Senhor é bom. Mas esta é sobretudo uma hora de gratidão: gratidão ao Senhor pela amizade que me concedeu e que deseja conceder a todos nós. Gratidão às pessoas que me formaram e acompanharam. E, subjacente a tudo isto, a oração para que um dia o Senhor na sua bondade nos acolha e faça contemplar a sua glória. Amém.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

G. K. Chesterton – O Santo da Blogsfera

Ele amava o debate e a controvérsia, mas ao mesmo tempo, conseguiu manter-se magnânimo ao seu inimigo.

Tenho notado nas respostas às minhas duas últimas postagens no blog que algumas pessoas ficam extremamente esquentadas sobre certas questões como ‘direitos das mulheres’, ‘o fantasma da superpopulação’ e assim por diante. As vezes parece que não é possível conduzir um debate sério sem querer dar verbalmente um soco na cara do seu adversário. Qual é o antídoto? Amar seu adversário mesmo quando você explica a ele que seus argumentos são superficiais, ignorantes, irracionais ou confusos; mais fácil falar do que fazer. Havia um homem que amava o debate, a controvérsia e a argumentação, e ao mesmo tempo conseguia se manter magnânimo ao seu inimigo: este era G. K. Chesterton. Acabo de ler "The Holiness of Chesterton", editado por William Oddie, e refletindo que Chesterton teria entrado na blogsfera com entusiasmo. Palavras escritas e respostas rápidas vem para ele naturalmente; idéias e imagens flui incessantemente de sua pena. Diante da brigada ateísta ele teria feito bolhas e faiscado, rindo e se lançando, pronto para vencer assim como para vencer.

Em sua introdução, Oddie cita Chesterton em S. Tomás de Áquimo: A produtividade enorme de S. Tomás, comenta Chesterton, não poderia ter sido alcançada, "se ele não estivesse pensando mesmo quando não escrevia; mas acima de tudo pensando combativamente. Isso em seu caso, certamente não queria dizer rancor ou amargura ou falta de caridade, mas isso quer dizer combativo. Por uma questão de fato é geralmente o homem que não está pronto para argumentar, que está pronto para zombar. É por isso que na literatura recente tem havido tão pouca argumentação e tanto escárnio."

Não havia escárnio nas composições de Chesterton. Ele teria desprezado como um tom de voz, bem como seus companheiro, a amargura e o rancor. Ele também foi santo, porquê ele amava a verdade e amava as pessoas; porquê ele odiava a farsa e a hipocrisia; porquê ele foi generoso e humilde. "Santidade" é uma categoria estranha ao ateísmo, que cheira a trapaça cristã e hipocrisia. Se os ateus pudessem apenas pensar em santidade como um homem muito grande, engraçado e generoso, sincero e bem humorado, cheio de fé e irradiando felicidade, eles teriam alguma idéia do que se trata.

Olhando para trás em sua vida Chesterton certa vez a descreveu como "indefensavelmente feliz", a felicidade de um homem que encontrou a pérola de grande valor e quer compartilhar com todos que ele encontra. Vamos rezar pela sua canonização, como o futuro santo da blogsfera.

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Autor: Francis Phillips
Fonte: CatholicHerald.co.uk
Tradução minha

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Certo onde estávamos errados

Durante o curso de seu longo pontificado, o Papa João Paulo II escreveu grande volume de Cartas Apostólicas, Encíclicas e outros documentos exortando os fiéis da Igreja Católica em várias matérias da fé: reforçar sua vida de oração, aderir ao ensinamento da Igreja sobre o aborto e a contracepção artificial, ter a devida reverência pelo Santo Sacrifício da Missa e pela Eucaristia, ter uma boa compreensão da Doutrina Social Católica (Distributismo), aderir aos ensinamentos morais Católicos, a importância da razão como um complemento à fé, e talvez o mais importante, reafirmar a autoridade magisterial da Igreja, numa época em que a maioria acredita que ela seja uma irrelevante relíquia do passado.

Que efeito tem feito as encíclicas? Bem, não parece haver qualquer ressurgimento de interesse em S. Tomás de Aquino. Católicos ainda estão abortando e usando da contracepção no mesmo rítmo que a população geral. O que lemos acerca de frequentar a Igreja, os políticos Católicos pró-aborto indicam que eles ainda possuem uma aproximação um tanto casual ao Sacramento Católico da Eucaristia. E nós não temos visto nada para nos convercer de que os Católicos são mais bem informados sobre a subsiariedade ou o Distributismo do que qualquer pessoa.

Assim pode parecer razoável concluir que João Paulo II teve pouca influência sobre o seu rebanho, apesar de sua enorme popularidade.

Naturalmente, o impacto total dos 26 anos de pontificado de João Paulo II só pode ser julgado pela história, mas já detectamos um paradoxo que Chesterton teria apreciado: O fato de que extensos ensinamentos de João Paulo II são amplamente ignorados não é um sinal de fraqueza do papado. Nadar contra a maré é um sinal claro de vitalidade.

Ele traz à mente algo que Chesterton escreveu quando discutia sua própria conversão: ''Nós realmente não queremos uma religião que é exatamente onde estamos certos. Queremos uma religião que é exatamente onde estamos errados.'' Se há alguma coisa que a extensa obra de João Paulo II demonstra é esta: que o papado está frequentemente certo não só quando o mundo está errado mas mesmo quando os Católicos estão errados.

Aos detratores da Igreja, Chesterton escreveu: ''Simplesmente levam o humor moderno e quando exige qualquer credo seja cortado para se ajustar àquele humor.'' Que tipo de humor moderno? Tomando uma sugestão do feminismo, os modernos olham o sacerdócio somente masculino e exigem que a Igreja ordene mulheres, pois, eles insistem, o sacerdócio apenas masculino é uma reminiscência de épocas menos esclarecidas. Mas eles se esquecem (ou talvez nem saibam) que os cultos pagãos, que os primeiros Cristão encontrados em toda parte eram dominados por sacerdotisas, e que um sacerdócio apenas masculino parecia tão estranho para os modernos de 2000 anos atrás como ele se parece para os modernos de hoje. Ou talvez os modernos de hoje não são assim tão modernos.

Em sua carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, João Paulo II deixou claro que as mulheres não poderiam ser ordenadas padres porque, como ele disse, a Igreja não tem autoridade para fazê-lo. Em outras palavras, ele não poderia mudar a doutrina da Igreja. Não importa o que as mulheres queiram ou o que diz a moda. Este papa não se guia pelo mau humor. Havia muita gente, Católicos e não Católicos igualmente, que gritou em indignação quando João Paulo II reafirmou o ensinamento antigo da Igreja. Mas ele estava certo enquanto eles estavam errados.

Da mesma forma, a pressão continuou a crescer durante o papado de João Paulo II para a Igreja relaxar seus ensinamento sobre a contracepção artificial, e até mesmo sobre o aborto. A sabedoria popular dizia que diminuindo suas restrições, a Igreja finalmente apanharia o mundo moderno. No entanto, a contracepção e o aborto não são novidade, e os modernos mais uma vez provavelmente não estão consciêntes de que os primeiros Cristãos a chegar a Roma encontraram uma sociedade onde a contracepção, o aborto, e mesmo o infanticídio eram amplamente praticados. (Temos que perguntar: o que é nos modernos que os tornam modernos?)

Contra esta maré, João Paulo II publicou sua encíclica Evangelium Vitae, que reafirmou o antigo e constante ensinamento da Igreja sobre o aborto e a contracepção: que a tomada de uma vida humana inocênce no ventre é mal, que separar o que Deus uniu relativamente ao ato matrimonial é prejudicial à vida e ao amor. Isso não combina bem com os modernos, mas eles estavam errados enquanto o Papa estava certo, e uma maneira de nós sabermos que ele estava certo foi que ele simplesmente repetiu um ensinamento que remonta ao primeiro século, quando os modernos de então eram maus também. Assim foi com João Paulo II durante seu pontificado. Ele era aquela coisa viva que vai contra a corrente das coisas mortas. Era verdade no início quando ele iniciou a queda do comunismo simplesmente dizendo que seus colegas poloneses eram livres independentes de qualquer sistema político sob o qual vivessem, desafiando um mundo que disse que o comunismo não cairia, salvo por uma massiva intervenção militar. E era verdade no final, quando em seus últimos dias ele deu testemunho da dignidade do sofrimento enquanto os estabelecimentos judiciais e políticos dos Estados Unidos conspiraram para matar Terri Schiavo por nenhuma outra razão além de que ela era um incoveniente.

''É nesses casos'', escreve Chesterton, ''que chegamos a real briga da religião, e é nesses casos que chegamos ao triunfo peculiar e solitário da fé Católica. Não é em apenas estar bem quando estamos certos, como em ser alegre ou esperançoso ou humano. É em ter sido bem quando estávamos errados, e no fato de voltar sobre nós mais tarde como um bumerangue.''

Requiesce in Pace, Joao Paulo II: você estava certo, quando nós estávamos errados.


—Sean P. Dailey, do conselho editorial da Gilbert Magazine.
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Fonte: American Chesterton Society
Tradução minha.

terça-feira, 8 de março de 2011

Como ir à Missa e não perder a Fé

Bux: “No campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação insuportável”

Por Mariaelena Finessi

ROMA, terça-feira, 8 de março de 2011 (ZENIT.org) - Um enfraquecimento da fé e a diminuição do número de fiéis poderiam ser atribuídos aos abusos litúrgicos e às Missas ruins, quer dizer, às que traem seu sentido original e onde, no centro, já não está Deus, mas o homem, com a bagagem de suas perguntas existenciais.

Essa é uma ideia sustentada por Nicola Bux, teólogo e consultor da Congregação para a Doutrina da Fé e do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

Apresentado em Roma no dia 2 de março, em seu livro "Come andare a Messa e non perdere la fede" [Como ir à Missa e não perder a fé, N. do T.], Bux lança-se contra a virada antropológica da liturgia.

Bux replica a quantos criticaram Bento XVI, acusando-o de ter traído o espírito conciliar. Ao contrário – argumenta o teólogo – os documentos oficiais do Concílio Vaticano II foram traídos precisamente por essas pessoas, bispos e sacerdotes à frente, que alteraram a liturgia com “deformações ao limite do suportável”.

Participar de uma celebração eucarística pode significar, de fato, também se encontrar perante as formas litúrgicas mais estranhas, com sacerdotes que discutem economia, política e sociologia, tecendo homilias em que Deus desaparece. Proliferam os ensaios de antropologia litúrgica até reduzir a esta dimensão os próprios sinais sacramentais, “agora chamados – denuncia Bux – preferivelmente de símbolos”. A questão não é pequena: enfrentá-la implica ser tachado de anticonciliar.

Todos se sentem com o direito de ensinar e praticar uma liturgia “ao seu modo”, tanto que hoje é possível assistir, por exemplo, “à afirmação de políticos católicos que, considerando-se ‘adultos’, propõem ideias de Igreja e de moral em contraste com a doutrina”.

Entre aqueles que iniciaram esta mudança, Bux recorda Karl Rahner, quem, à raiz do Concílio, denunciava a reflexão teológica então imperante que, em sua opinião, mostrava-se pouco atenta ou esquecida da realidade do homem.

O jesuíta alemão sustentava em contrapartida que todo discurso sobre Deus brotaria da pergunta que o homem lança sobre si mesmo. Em consequência – esta é a síntese – a tarefa da teologia deveria ser falar do homem e de sua salvação, lançando as perguntas sobre si e sobre o mundo. Um pensamento teológico que, com triste evidência, foi capaz de gerar erros, o mais clamoroso dos quais é o modo de entender o sacramento, hoje já não sentido como procedente do Alto, de Deus, mas como participação em algo que o cristão já possui.

“A conclusão que Häuβling tira disso – recuerda Bux – é que o homem, nos sacramentos, acabaria por participar de uma ação que não corresponde realmente a sua exigência de ser salvo”, já que abre mão da intervenção divina. A semelhante tese “sacramental” e à derivação anexa da liturgia, responde Joseph Ratzinger, que já no dorso do volume XI, “Teologia da Liturgia”, de sua Opera omnia, escreve: “Na relação com a liturgia se decide o destino da fé e da Igreja”.

A liturgia é sagrada, de fato, se tiver suas regras. Apesar disso, se por um lado o ethos, ou seja, a vida moral, é um elemento claro para todos, por outro lado, ignora-se quase totalmente que existe também um “jus divinum”, um direito de Deus a ser adorado. “O Senhor é zeloso de suas competências – sustenta Bux –, e o culto é o que lhe é mais próprio. Em contrapartida, precisamente no campo litúrgico, estamos frente a uma desregulação”.

Sublinhando, em contrapartida, que sem “jus” o culto torna-se necessariamente idolátrico, em seu livro o teólogo cita uma passagem da “Introdução ao espírito da liturgia”, de Ratzinger, que escreve: “Na aparência, tudo está em ordem e presumivelmente também o ritual procede segundo as prescrições. E no entanto é uma queda na idolatria (...), faz-se Deus descer ao nível próprio, reduzindo-o a categorias de visibilidade e compreensibilidade”.

E acrescenta: “trata-se de um culto feito à própria medida (...), converte-se em uma festa que a comunidade faz para si mesma; celebrando-a, a comunidade não faz mais que confirmar a si mesma”. O resultado é irremediável: “Da adoração a Deus se passa a um círculo que gira em torno de si mesmo: comer, beber, divertir-se”. Em sua autobiografia (Mi vida), Ratzinger declara: “Estou convencido de que a crise eclesial em que hoje nos encontramos depende em grande parte do colapso da liturgia”.

Para encerrar, uma sugestão e uma advertência. A primeira é relançar a liturgia romana “olhando para o futuro da Igreja – escreve Bux –, em cujo centro está a cruz de Cristo, como está no centro do altar: Ele, Sumo Sacerdote a quem a Igreja dirige seu olhar hoje, como ontem e sempre”. A segunda é inequívoca: “se acreditamos que o Papa herdou as chaves de Pedro – conclui –, quem não o obedece, antes de tudo em matéria litúrgica e sacramental, não entra no Paraíso”.


Fonte: www.zenit.org

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Catequese do Papa sobre São João da Cruz

Queridos irmãos e irmãs:

Há duas semanas, apresentei a figura da grande mística espanhola Teresa de Jesus. Hoje, eu gostaria de falar sobre outro importante santo dessa terra, amigo espiritual de Santa Teresa, reformador, ao lado de sua família religiosa carmelita: São João da Cruz, proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI, em 1926, a quem a tradição apelidou de Doctor mysticus, "Doutor místico".

João da Cruz nasceu em 1542, na pequena cidade de Fontiveros, perto de Ávila, em Castilla la Vieja, filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez. Sua família era muito pobre, porque o pai, de origem nobre de Toledo, tinha sido expulso de casa e deserdado por ter se casado com Catalina, uma humilde tecelã de seda. Órfão de pai em tenra idade, João, aos 9 anos, mudou-se, com sua mãe e seu irmão Francisco, a Medina del Campo, perto de Valladolid, centro comercial e cultural. Lá, frequentou o Colegio de los Doctrinos, além de realizar trabalhos humildes para as freiras da igreja-convento de Madeleine. Posteriormente, dadas as suas qualidades humanas e seu desempenho na escola, foi admitido inicialmente como enfermeiro no Hospital de la Concepción, e mais tarde no Colégio dos Jesuítas, fundado em Medina del Campo: João entrou aos 18 anos e estudou, durante três anos, humanidades, retórica e línguas clássicas. No final da sua formação, teve muito clara sua própria vocação: a vida religiosa e, entre as muitas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.

No verão de 1563, iniciou o noviciado entre as Carmelitas da cidade, tomando o nome religioso de Matias. No ano seguinte, foi destinado à prestigiada Universidade de Salamanca, onde estudou por três anos filosofia e artes. Em 1567, foi ordenado sacerdote e voltou para Medina del Campo para celebrar sua primeira Missa, cercado pelo amor de sua família. E foi precisamente lá que teve lugar o primeiro contato entre João e Teresa de Jesus. O encontro foi crucial para ambos: Teresa explicou seu plano de reforma do Carmelo, também no ramo masculino, e sugeriu a João que se unisse a ela "para maior glória de Deus"; o jovem padre ficou fascinado pelas ideias de Teresa, chegando a se tornar um grande apoio para o projeto. Os dois trabalharam juntos alguns meses, compartilhando ideais e propostas para inaugurar, o mais breve possível, a primeira casa dos Carmelitas Descalços: a abertura ocorreu em 28 de dezembro de 1568, em Duruelo, lugar solitário da província de Ávila. Com João, formavam esta primeira comunidade masculina outros três companheiros. Ao renovar sua profissão religiosa segundo a Regra primitiva, os quatro adotaram um novo nome: João foi chamado "da Cruz", nome com o qual seria depois universalmente conhecido. No final de 1572, a pedido de Santa Teresa, tornou-se confessor e vigário do mosteiro da Encarnação, em Ávila, onde a santa era priora. Foram anos de estreita colaboração e amizade espiritual, que enriqueceu ambos. Desse período datam também as mais importantes obras teresianas e os primeiros escritos de João.

A adesão à reforma carmelita não foi fácil e custou a João inclusive graves sofrimentos. O episódio mais dramático foi, em 1577, sua captura e reclusão no convento dos Carmelitas da Antiga Observância de Toledo, devido a uma acusação injusta. O santo permaneceu na prisão por seis meses, sujeito a privações e constrições físicas e morais. Aqui ele compôs, juntamente com outros poemas, o famoso "Cântico Espiritual". Finalmente, na noite entre 16 e 17 de agosto de 1578, conseguiu fugir de maneira arriscada, refugiando-se no mosteiro das Carmelitas Descalças da cidade. Santa Teresa e seus companheiros reformados comemoraram sua libertação com imensa alegria e, após um curto período de tempo para recuperar as forças, João foi destinado a Andaluzia, onde passou dez anos em vários mosteiros, especialmente em Granada. Assumiu cargos cada vez mais importantes na Ordem, até se tornar Vigário Provincial, e completou a redação de seus tratados espirituais. Depois, ele voltou para sua terra natal, como membro do governo geral da família religiosa teresiana, que já gozava de plena autonomia legal. Morou no Carmelo de Segóvia, desempenhando o cargo de superior daquela comunidade. Em 1591, teve de deixar todas as responsabilidades, pois foi destinado à nova província religiosa do México. Enquanto se preparava para a longa viagem com outros dez companheiros, retirou-se a um mosteiro solitário, perto de Jaén, onde ficou gravemente doente. João enfrentou enormes sofrimentos com paciência e serenidade exemplares. Morreu na noite entre 13 e 14 de dezembro de 1591, enquanto seus irmãos recitavam o ofício matutino. Ele se despediu deles dizendo: "Hoje vou cantar o ofício no céu". Seus restos mortais foram transferidos para Segóvia. Foi beatificado por Clemente X, em 1675, e canonizado por Bento XIII, em 1726.

João é considerado um dos maiores poetas líricos da literatura espanhola. Suas principais são "Subida ao Monte Carmelo", "Noite escura da alma", "Cântico Espiritual" e "Chama viva de amor".

No "Cântico Espiritual", São João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a progressiva possessão gozosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é amada por Ele. A "Chama viva de amor" continua nesta perspectiva, descrevendo mais detalhadamente o estado de união transformadora com Deus. O exemplo utilizado por João é sempre o do fogo, que quanto mais arde e consome a lenha, mais se torna incandescente, até converter-se em chama: assim é o Espírito Santo, que, durante a noite escura, purifica e "limpa" a alma e, ao longo do tempo, a ilumina e esquenta como se fosse uma chama. A vida da alma é uma contínua festa do Espírito Santo, que permite entrever a glória da união com Deus na eternidade.

A "Subida ao Monte Carmelo" apresenta o itinerário espiritual do ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar o cume da perfeição cristã, simbolizada pelo cume do Monte Carmelo. Esta purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, em colaboração com a ação divina, para libertar a alma de todo apego ou afeto contrário à vontade de Deus. A purificação, que, para alcançar a união de amor com Deus, deve ser total, começa na via dos sentidos e prossegue com aquela que se obtém pelas três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade.

A "Noite escura", descreve o aspecto "passivo", ou seja, a intervenção de Deus no processo de "purificação" da alma. O esforço humano, de fato, por si só é incapaz de chegar às raízes profundas das más inclinações e maus costumes da pessoa: pode freá-las, mas não desenraizá-las totalmente. Para fazê-lo, é necessária a ação especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe para a união de amor com Ele. São João define esta purificação como "passiva", justamente porque, mesmo que aceita pela alma, é realizada pela ação misteriosa do Espírito Santo, que, como uma chama de fogo, consome toda impureza. Neste estado, a alma está sujeita a todo tipo de provas, como se estivesse em uma noite escura.

Estas indicações sobre as principais obras do santo nos ajudam a chegar mais perto dos pontos sobressalentes de sua vasta e profunda doutrina mística, que tem como objetivo descrever um caminho seguro para chegar à santidade - o estado de perfeição ao qual Deus chama todos nós. De acordo com João da Cruz, tudo o que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, podemos chegar à descoberta d'Aquele que deixou nelas seu selo. A fé, porém, é a única fonte dada ao homem para conhecer a Deus como Ele é em si mesmo, como o Deus Uno e Trino. Tudo o que Deus queria comunicar ao homem, já disse em Jesus Cristo, o Verbo feito carne. Ele, Jesus Cristo, é o caminho único e definitivo até o Pai (cf. Jo 14,6). Qualquer coisa criada não é nada comparada com Deus e nada vale fora d'Ele; por conseguinte, para alcançar o amor perfeito de Deus, qualquer outro amor deve ser conformado, em Cristo, ao amor divino. Daí a insistência de São João da Cruz na necessidade da purificação e do esvaziamento interior para transformar-se em Deus, que é a única meta da perfeição. Esta "purificação" não é mera ausência física de coisas ou de sua utilização; o que torna a alma pura e livre, na verdade, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo deve ser colocado em Deus como centro e fim da vida. O longo e laborioso processo de purificação exige esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus: tudo que o homem pode fazer é "dispor-se" para estar aberto à ação divina e não colocar obstáculos a ela. Vivendo as virtudes teologais, o homem se eleva e dá valor ao seu próprio esforço. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade segue o ritmo do trabalho de purificação e da progressiva união com Deus, até transformar-se n'Ele. Quando se alcança este objetivo, a alma mergulha na própria vida trinitária, de forma que São João diz que esta chega a amar a Deus com o mesmo amor com que Ele ama, porque a ama no Espírito Santo. Assim, o Doutor Místico sustenta que não há verdadeira união de amor com Deus se não culminar com a união trinitária. Neste estado supremo, a alma santa conhece tudo em Deus e já não deve passar pelas criaturas para chegar a Ele. A alma já se sente inundada pelo amor divino e regozija-se totalmente nele.

Queridos irmãos e irmãs, no final, a pergunta que não quer calar: este santo, com sua alta mística, com esse árduo caminho até o cume da perfeição, tem algo a dizer a nós, ao cristão normal que vive nas circunstâncias da vida hoje, ou é um exemplo, um modelo somente para algumas almas escolhidas que podem realmente empreender este caminho da purificação, da ascensão mística? Para encontrar a resposta, devemos primeiro observar que a vida de São João da Cruz não era um "voar pelas nuvens místicas", senão que foi uma vida dura, muito prática e concreta, tanto como reformador da ordem, onde encontrou muitas oposições, quanto como superior provincial, ou na prisão dos seus irmãos na religião, onde foi exposto a insultos incríveis e agressões físicas. Foi uma vida dura, mas precisamente nos últimos meses na prisão, ele escreveu uma de suas obras mais belas. E assim entendemos que o caminho com Cristo, esse ir com Cristo, "o Caminho", não é um peso adicional à carga já bastante difícil da nossa vida; não é algo que tornaria ainda mais pesado este fardo, e sim algo completamente diferente, é uma luz, uma força que nos ajuda a carregar esse peso. Se um homem tem em si um grande amor, este amor quase lhe dá asas, e então suporta mais facilmente todos os aborrecimentos da vida, porque carrega dentro de si esta grande luz; esta é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Esse deixar-se amar é a luz que nos ajuda a carregar o peso de cada dia. E a santidade não é obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta "abertura": abrir as janelas da nossa alma para que a luz de Deus possa entrar; não esquecer de Deus, porque precisamente na abertura à sua luz, encontramos força, a alegria dos redimidos. Oremos ao Senhor para que nos ajude a encontrar esta santidade, para que nos ajude a deixar-nos amar por Deus, já que esta é a vocação de todos nós e a verdadeira redenção. Obrigado.


Fonte: www.Zenit.org

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Papa Bento XVI autoriza promulgação das virtudes heroicas da Serva de Deus Francisca de Paula Jesus

Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 14-01-2011, Gaudium Press) Além da assinatura do decreto comprovando milagre atribuído à intercessão de João Paulo II, o Santo Padre autorizou hoje, também, a Congregação para a Causa do Santos a promulgar as virtudes heroicas de um leiga brasileira: a Serva de Deus Francisca de Paula Jesus, mais conhecida como "Nhá Chica. A religiosa brasileira, cuja causa de beatificação começou a tramitar no Vaticano em 2007, ostentará agora o título canônico de Venerável.

Para se tornar beata, será necessário que o Vaticano reconheça um milagre ocorrido pela intercessão de "Nhá Chica". Esse milagre teria acontecido em 1995, quando a professora Analúcia Meirelles Leite, moradora de Caxambu, em Minas Gerais, curou-se de um problema congênito muito grave no coração, sem passar por cirurgia, somente através das orações para a Serva de Deus brasileira.

Nhá Chica faleceu em 1895 e sua vida foi passada quase em sua totalidade no município de Baependi, Minas Gerais. Foi na cidade que ela dedicou sua vida às obras da Igreja e à ajuda aos mais necessitados. Analfabeta, pedia para que lessem para ela as Sagradas Escrituras.

Mesmo sem saber ler e escrever compôs uma novena a Nossa Senhora da Conceição. Por sua devoção à Virgem, construiu uma pequena igreja dedicada à Mão e Deus ao lado da casa onde morava. Igreja que, anos mais tarde, transformou-se no Santuário Nossa Senhora da Conceição.


Fonte: http://www.gaudiumpress.org/view/show/22684-papa-bento-xvi-autoriza-promulgacao-das-virtudes-heroicas-de-serva-de-deus-brasileira

sábado, 8 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Os Santos e a interpretação da Escritura

48. A interpretação da Sagrada Escritura ficaria incompleta se não se ouvisse também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus, ou seja, os Santos.[162] De facto, «viva lectio est vita bonorum».[163] Realmente a interpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua.

Certamente não é por acaso que as grandes espiritualidades, que marcaram a história da Igreja, nasceram de uma explícita referência à Escritura. Penso, por exemplo, em Santo Antão Abade, que se decide ao ouvir esta palavra de Cristo: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céus; depois, vem e segue-Me» (Mt 19, 21).[164] Igualmente sugestivo é São Basílio Magno, quando, na sua obra Moralia, se interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio do fiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for».[165] São Bento, na sua Regra, remete para a Escritura como «norma rectíssima para a vida do homem».[166] São Francisco de Assis – escreve Tomás de Celano – «ao ouvir que os discípulos de Cristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazer alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares de calçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo: Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!».[167] E Santa Clara de Assis reproduz plenamente a experiência de São Francisco: «A forma de vida da Ordem das Irmãs pobres (…) é esta: observar o santo Evangelho do Senhor nosso Jesus Cristo».[168] Por sua vez, São Domingos de Gusmão «em toda a parte se manifestava como um homem evangélico, tanto nas palavras como nas obras»,[169] e tais queria que fossem também os seus padres pregadores: «homens evangélicos».[170] Santa Teresa de Ávila, nos seus escritos, recorre continuamente a imagens bíblicas para explicar a sua experiência mística, e lembra que o próprio Jesus lhe manifesta que «todo o mal do mundo deriva de não se conhecer claramente a verdade da Sagrada Escritura».[171] Santa Teresa do Menino Jesus encontra o Amor como sua vocação pessoal, quando perscruta as Escrituras, em particular os capítulos 12 e 13 da Primeira Carta aos Coríntios;[172] e a mesma Santa assim nos descreve o fascínio das Escrituras: «Apenas lanço o olhar sobre o Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr».[173] Cada Santo constitui uma espécie de raio de luz que brota da Palavra de Deus: assim o vemos também em Santo Inácio de Loyola na sua busca da verdade e no discernimento espiritual, em São João Bosco na sua paixão pela educação dos jovens, em São João Maria Vianney na sua consciência da grandeza do sacerdócio como dom e dever; em São Pio de Pietrelcina no seu ser instrumento da misericórdia divina; em São Josemaria Escrivá na sua pregação sobre a vocação universal à santidade; na Beata Teresa de Calcutá missionária da caridade de Deus pelos últimos; e nos mártires do nazismo e do comunismo representados, os primeiros, por Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), monja carmelita, e os segundos pelo Beato Aloísio Stepinac, Cardeal Arcebispo de Zagrábia.

49. Assim a santidade relacionada com a Palavra de Deus inscreve-se de certo modo na tradição profética, na qual a Palavra de Deus se serve da própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efectuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus.

Tivemos um testemunho directo desta ligação entre Palavra de Deus e santidade durante a XII Assembleia do Sínodo quando, a 12 de Outubro na Praça de São Pedro, se realizou a canonização de quatro novos Santos: o sacerdote Caetano Errico, fundador da Congregação dos Missionários dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria; a Irmã Maria Bernarda Bütler, nascida na Suíça e missionária no Equador e na Colômbia; a Irmã Afonsa da Imaculada Conceição, primeira santa canonizada nascida na Índia; a jovem leiga equatoriana Narcisa de Jesus Martillo Morán. Com a sua vida, deram testemunho ao mundo e à Igreja da perene fecundidade do Evangelho de Cristo. Pedimos ao Senhor que, por intercessão destes Santos canonizados precisamente nos dias da assembleia sinodal sobre a Palavra de Deus, a nossa vida seja aquele «terreno bom» onde o Semeador divino possa semear a Palavra para que produza em nós frutos de santidade, a «trinta, sessenta, e cem por um» (Mc 4, 20).


Fonte: Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Hino à São Pedro de Alcântara


Feliz mil vezes quem preserva

Imaculada a branca flor;

E, desde jovem, se conserva

No Santuário do Senhor!

Tal como o lírio alvinitente

Que ao sol desponta em plena luz

Assim abriste adolescente

O coração a teu Jesus.


Protege o povo brasileiro

Que vem feliz te agradecer;

O nosso imortal padroeiro,

A fé não lhes deixes perder.

A fé não lhes deixes perder.


Como tesouro precioso,

Tu conservaste o coração

Livre do mal e fervoroso

No caminhar da perfeição;

Por esse afâ com que imitaste

Ao Salvador levando a Cruz,

Dá-mos vencer como alcançaste

O vil prazer que nos seduz.


No derradeiro e triste dia,

Vem lá do céu nos consolar,

Suavemente da agonia

Os mil temores dissipar

Morrendo assim com paciência

Juntos diremos, lá no céu:

Abençoada a penitência,

Que tanta glória nos valeu.


Deus, que a São Pedro concedeste

O Céu na terra prelibar,

E a seu fervor correspondeste

Com mui suave meditar,

Dá que imitemos seu exemplo

De austeridade e compunção;

E de nossa alma faze um templo

De fervorosa adoração.


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As orquídeas e a santidade

Um jardim belo e atraente está composto de uma variedade de flores com suas cores e formas que encanta quem o contempla. Isto se nota, sobretudo, quando a exuberância de plantas constitui uma unidade, agradável de admirar.

Exalando perfume, beleza e suavidade nas copas de altas árvores, na iluminada e agreste selva tropical, as orquídeas florescem encantando a todos os povos da terra. De fato, a maioria das espécies nasce nas florestas quentes onde elas possuem o mais propício habitat natural. Entretanto, podem brotar nos prados secos ou úmidos, nas sombrias matas temperadas; em relvados, mangais, dunas e rochas e, até no subsolo.

As orquídeas mais conhecidas possuem entre 10 a 20 cm, contudo, já se encontraram espécies com mais de 4 metros de comprimento; ou ainda, do tamanho de uma cabeça de alfinete. A variedade das orquídeas é impressionante, cerca 35.000 espécies nascem em todas as latitudes do planeta. Do círculo polar ártico ao mais tórrido clima tropical; nas escarpadas montanhas a 4.000 metros de altitude e em amenas planícies. É considerada a maior família de angiospermas, daí o especial interesse que desperta no mundo científico o estudo das orquídeas, por ser um “grupo único e altamente desenvolvido”.1

Esta variedade está aumentando, tanto naturalmente quanto por manipulação humana. É um gênero muito dócil à fecundação entre tipos diferentes somando cerca de 25.000 espécies híbridas. Nesta imensa variedade de orquídeas, existe uma unidade, por causa de uma “idêntica estrutura floral”.2 Das menores às maiores, todas são da mesma espécie, possuindo três pétalas e três sépalas conhecidas respectivamente como vertilícios internos e externos. Uma das pétalas é mais desenvolvida, maior e mais vistosa: chama-se labelo.

Não são apenas os cientistas que se encantam com as orquídeas. Desde a antiguidade eram admiradas pelas damas, cantadas pelos poetas e pintadas pelos artistas por sua textura delicada, forma extraordinária e caráter dramático. Acredita-se que Teofrasto (372-287 a.C.), pupilo de Aristóteles e um dos primeiros botânicos do ocidente, foi o primeiro a batizá-las com o vocábulo orchis, do grego primitivo orchos (círculo ou esférico) por causa do formato oval das raízes de algumas espécies mediterrâneas. Os antigos orientais extraíam seu perfume e nos herbários astecas, eram usadas como especiaria e loção para a saúde.

Algumas são exóticas por suas exuberantes formas e combinação de tons; outras são discretas de um colorido comum, mas nem por isso, menos belas. Há orquídeas sóbrias e solenes, também existem aquelas de aparência jocosa, como a Orchis Símia, uma espécie européia que lembra a pitoresca forma de macacos. Outras têm um colorido selvagem que fazem lembrar a pele de tigres asiáticos. Contudo, a maioria atrai os olhos admirativos pela sua amenidade, harmonia e beleza. Assim é a Barkeria, originária da Guatemala, de uma linda cor paunassa. Já a Primavera por causa de seu amarelo vivo é conhecida como chuva de ouro. A Potinaro, a rainha das orquídeas, é de uma beleza indescritível digna de ornar os altares de uma Catedral.

As flores das orquídeas são o seu mais valioso produto. Florir, encantando os povos é a sua finalidade. Por esta beleza incomum e tão variável, este mundo botânico é um belo e atraente exemplo de unidade na variedade.

As criaturas visíveis refletem certas características do mundo espiritual. A variedade das orquídeas torna-se um símbolo das almas criadas por Deus. Embora todos os homens tenham a mesma dignidade, as mesmas características que constituem a natureza humana, todos são, no entanto, diferentes. Cada ser humano criado a imagem e semelhança de Deus reflete um aspecto diferente da beleza do Criador.

É imagem, sobretudo, em sua alma, nas potências espirituais, inteligência e vontade.3 Por esta razão a natureza humana se aproxima mais ao criador que os seres irracionais. Em cada alma reluz de modo especial um aspecto de Deus; por isso, o universo das almas é mais numeroso, rico e belo que a família das orquídeas.

Nem todas as almas completam sua finalidade nesta vida, ou produzem a flor que coroa sua existência. O homem só realiza a plenitude de seu esplendor quando através da graça atinge a santidade. É o que se dá com os santos, as verdadeiras flores do mundo espiritual.

Certo dia, Nosso Senhor disse à Santa Catarina de Sena que “se víssemos uma alma em estado de graça teríamos a inclinação de adorá-la como Deus”.4 Se essa é a beleza da alma de um santo, o que se dirá da imensa variedade de Santos e Santas que floresceram no jardim da Igreja.

Assim como as orquídeas, há santos de todos os feitios. Um São Felipe Neri, simpático e jocoso, ou ainda, o asceta e solitário Santo Antão. Santos célebres de uma força de atração impressionante, como Santa Teresinha, ou santos desconhecidos, heróis em virtude, mas discretos. Houve um São Luís, Rei de França e uma Santa Isabel, Rainha de Portugal; também São Cízio, advogado; Beato Angélico, artista; Santa Bakhita, doméstica, e etc. Enfim, santos de todas as idades, classes sociais e estados de vida, de todas as latitudes e povos da terra.

Nada mais diferente e ao mesmo tempo tão semelhante quanto dois santos. A Igreja os canoniza formando um grande jardim de modelos, para estimular os fiéis alcançarem a santidade. A santidade é possível em qualquer recanto do planeta. Como no mundo das orquídeas, também no universo das almas santas existe um ponto de união nesta imensa diversidade. A santidade é o que torna afins almas tão diferentes, de temperamentos tão múltiplos, numa variedade e harmonia, ao mesmo tempo numa dignidade e simplicidade mais intensa que a família das flores.

Assim, as orquídeas ilustram com beleza e suavidade a síntese perfeita de unidade na variedade das almas santas.

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1 KRAMER, Jack. Orquídeas. Rio de Janeiro: Salamandre, 1987. p. 13.FLOYD, Suhleworth. Orquídeas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1970. p. 14.

2 FLOYD, Suhleworth. Orquídeas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1970. p. 14.

3 Cf. S.Th. I, q. 3, a. 1.

4 SENA, Catarina de. Apud LIGÓRIO, Afonso de. Preparação para Morte. Lisboa: L.C. Castro, 2004. p. 198.


Autor: Marcos Eduardo Melo dos Santos – 2º ano de Teologia
Fonte: http://ittanoticias.arautos.org/?p=833

sábado, 31 de julho de 2010

O Verdadeiro e o Falso Católico Tradicional

Por Luciano Beckman

Caros amigos, Salve Maria!

Venho falar de uma verdade. Tanto quanto existe aquele progressista bom, que na sua ignorância nada conhece sobre a Igreja mas que de todo o coração busca a Deus ainda que na falta de conhecimento, existe o falso, o perverso que sabe de toda a verdade mas para não 'remar contra a maré' permanece no erro para se juntar a massa e assim faz, dizendo-se seguir o Papa e estar salvo de todo o Mal ( Santo Atanásio que o diga desses perversos!)

O Falso Tradicional: Primeiramente, nota-se um falso tradicional por sua conduta. Julga tudo e todos e quem não lhe é do seu agrado, joga no "Inferno" insultando com várias passagens bíblicas e falas dos Santos Padres sem deixar o acusado ao menos se explicar. Julga pessoas de cismáticas quando a Igreja nunca se pronunciou sobre tal pessoa ou movimento, profere blasfêmias, mais julga do que acalenta o coração do seu irmão. Este tipo de católico é uma raça perversa, degradante e em massa na internet. Este tipo de católico cria ou não blogs no intuito de julgar e não de ensinar, fazendo o seu feudo e seu próprio tribunal do 'Santo Ofício' achando-se correto no exercício de condenar as pobres almas que nada conhecem e estão no erro sem o saber. Esta raça devemos fugir como da peste! Pois Deus em sua infinita misericórdia deu o seu único Filho para nos salvar, e jamais quis a morte do pecador, ainda que fosse por obra do homem a situação ter chegado onde está.

"Não quero a morte do pecador, mas que se converta e viva" (Ez 33,11)

O Verdadeiro Tradicional: Este católico é o que a Igreja realmente precisa. É caridoso, paciente, humilde, sempre disposto e sobretudo alegre! Recomenda a seus as boas leituras, sabe exortar com mansidão sem deixar que fuja seu irmão. Permanece fiel e é prudente com as novidades. Recusa todo e qualquer novidade que fuja do ensinamento perene da Igreja Católica e fiel a ortodoxia, se mantém seguro aliado ao Santo Rosário, reza pela conversão dos seus irmãos e pelo Santo Padre. Está sempre frequentando os sacramentos e não perde uma primeira ocasião para confessar seus pecados a um humilde e douto sacerdote. Acusa o falso catolicismo, sem desejar que seus irmãos caem no Inferno se não aceitarem seus conselhos. O seu verdadeiro intento é ensinar as almas a amar a Deus e somente isso anseia a tua alma: Que em tudo Deus seja glorificado!

O sossego é algo raro para este católico, e o sacrifício seu aliado. Vive pela fé e pela fé, quer viver e morrer.

Assim, repete com o Cristo:
«Eu não vim para arruinar os homens, mas para os salvar» (Lc 9,54-56;)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós!



Flos Carmeli, Vitis florigera, Splendor Coeli, Virgo puerpera singularis. Mater mitis, sed viri nescia, Carmelitis esto propitia, Stella maris.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Senhor dos Anéis, é um hino à Graça com referência contí­nua à Sagrada Escritura

" O Senhor dos Anéis» é fundamentalmente uma obra religiosa e católica escreve Tolkien na Carta de 2 de Dezembro de 1953 ao Padre Robert Murray: notícia nada surpreendente se for considerada a vida do seu autor, plasmada por uma profunda fé herdada da sua mãe, convertida da religião protestante da sua família de origem — o pai, educado numa escola metodista — ao catolicismo, escolha que pagou com em vida, sendo repudiada e abandonada à miséria com o desprezo dos seus familiares. "

Esta é a justa lente com a qual observar e compreender toda a obra de Tolkien. Os textos de Paolo Gulisano, de Andrea Monda e Saverio Simonelli sobre Tolkien, demonstram que a obra completa de Tolkien e não só «O Senhor dos Anéis», é um hino à Graça com referência contínua à Sagrada Escritura.

Nos textos de Tolkien do princípio ao fim surge como pensamento fundamental o sentido da vida e da escritura: o famoso conceito de subcriação, que vê o homem chamado por Deus na obra da formação da realidade, evidentemente com distinções: o subcriado do homem é o mundo dos mitos, dos acontecimentos que remetem para a mensagem completa.

Se Deus, «escrevendo» a Bíblia deu vida àqueles acontecimentos que são narrados — a Palavra fez-se carne! — o homem só pode «criar» mundos que permanecem prisioneiros da estrutura. Este é, segundo o nosso autor, o contributo que o homem pode oferecer a Deus na obra da criação. Há quem compare Tolkien a Manzoni (Monda e Simonelli) mas quem o sinta mais próximo de Dante: pois ambos, tiveram intenção de conferir o sentido anagógico ao seu trabalho: não símbolo, mas verdadeira experiência que remete para outro significado os acontecimentos. Não uma criação que remete para o outro, assim como o faz a Divina Comédia na intenção de Dante.

Olhando para a obra cinematográfica, se ao lado da trilogia podemos ver a presença dos dois últimos versos do Pai Nosso, o centro de toda a história pode ser expresso citando a conclusão da liturgia da palavra da Missa em honra de Sta. Inês — 21 de Janeiro — que recita: «Ó Deus omnipotente e eterno que escolhes as criaturas mais fracas para confundir o poder do mundo.» Nesta frase está condensada a mensagem de Tolkien: a confiança ilimitada no Deus católico e no seu projecto sobre a história, a exaltação dos humildes, a loucura que, como exclama Gandalf durante o conselho de Elrond, será o manto (a capa) aos olhos dos inimigos que assim confunde o poder do mundo. Palavras similares àquelas contidas no Magnificat : «exaltou a humildade da sua serva — derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.»

Humildes e frágeis: esta parece ser a fundamental e decisiva diferença entre o valioso universo Tolkiano e o divertido, mas também superficial mundo do Harry Potter, onde os bons são esplendidamente bons e os maus perversamente maus, divisão maniqueia. Na obra de Tolkien todos, como Gollum, podem ser resgatados e onde todos, como Frodo, como Aragon, como Gandalf, são constantemente tentados e não são capazes de ultrapassar necessariamente a tentação. Só os orcs, imitação do homem, criados da lama, e os emissários de Sauron são apresentados como impermeáveis à salvação: como os demónios e Satanás, segundo o que nos diz o Catecismo da Igreja católica.

Todo o «Senhor dos Anéis» é atravessado do sentido da fragilidade humana que só em Deus encontra cumprimento e apoio. Com efeito, como fez já notar Emília Lodizioni no primeiro e imprescindível «convite à leitura de Tolkien», o traço saliente deste romance, como de todos os que escreveu Tolkien, é a renúncia. A vitória sobre o mal só é possível renunciando, com liberdade, a qualquer coisa de querido. Se é bem notório que é a própria renúncia ao anel que permitirá salvar a Terra Média, são muitos outros os exemplos desta renúncia no texto, que se inicia com a renúncia de Bilbo ao seu precioso tesouro que Gandalf confiará a Frodo. O próprio Frodo renuncia à vida tranquila para assumir o encargo de conduzir ao término uma missão destinada aos heróis «institucionais» Aragon e Gandalf. Gandalf primeiro e Galadriel depois renunciam a possuir o anel que é oferecido a Frodo, superando a prova — e Tolkien utiliza em entrelinhas quase esse vocábulo — como Cristo no deserto afasta o demónio que lhe oferece a posse de todos os reinos da terra. Mas há outros argumentos que encontram a sua raiz na Escritura e na fé católica.

«Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm.8,25). Assim, de facto acontece no livro. Situações que parecem trágicas, extremamente negativas, demonstram-se no entanto preciosas para produzir o bem: se Gandalf o grisalho não «morresse» em Moria, não podia renascer como Gandalf o branco (e aqui recorda a palavra de Jesus: — Se o grão de trigo não morre — Jo.12,24). Sem o ataque de loucura que atinge Boromir e o leva a arrebatar o anel a Frodo e sem o assalto dos orcs o anel não chegaria a Est. Se Pippin e Merry não fossem raptados pelos orcs não chegariam à floresta de Fangar, se Gollum não tivesse fugido dos elfos e não tivesse traído os hobits o anel não teria sido deitado na fornalha ardente.

A figura do verdadeiro protagonista Frodo é traçada sob a figura do Santo, como Abraão a ponto de deixar tudo, a casa, a riqueza, a posição, para ir para a desolação; Moisés, o profeta que se sente inadequado para a missão confiada, e o próprio Jesus, do qual condivide a profunda e forte humildade e vontade de levar ao termo a missão confiada a custo com a própria vida. Como escreve Bertoni, na sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Bologna em 1995: «Frodo respondeu a uma chamada; se bem que quisesse evitá-la e não soubesse nada, de facto, de armas e de guerras». E uma vez chamado não volta mais atrás. Moria, que atravessa o primeiro livro, é o nome do monte sobre o qual Abraão é chamado a sacrificar Isaac (Gen.22,1). Mória é na realidade o lugar sobre o qual é constituída, séculos depois a cidadede Ieru-Salem, cujo rei ao tempo do patriarca é o famoso Melquisedec, rei de Salém. Uma das referências de Moria é o Calvário, onde um outro sacrifício será oferecido: o de Nosso Senhor Jesus Cristo. É em Mória que Gandalf morrre para depois ressurgir: um acaso? Penso que não. Uma indicação muito marcada que remete para o verdadeiro sentido do sacrifício.

Também a comunhão dos santos está presente no livro: é a piedade que Bilbo mostra sobre Gollum, não obstante todo o percurso do mal, inspira-lhe compaixão que permite que a missão seja cumprida. O esforço que as personagens fazem na sua batalha com as forças de Sauron sustêm Frodo, ajudando-o a levar o peso do anel que aumenta conforme se aproxima do Monte Fato. A mensagem de que o mal corrompe com a sua convivência está presente: o anel que representa o pecado, corrói todos os que têm contacto, não só Gollum, que o possui há muito, ficando uma imagem do que era, mas o próprio Bilbo e Frodo são alvo dos ataques e sobrevivem só em função de um esforço da livre vontade. Frodo não chega a perder a razão, também a capacidade de entender, e querer, no momento em que se encontra a poder deitar na voragem do Monte Fato o anel.

O anel encerra as três concupiscências que fala S. Paulo: dos olhos, da carne e soberba de vida. Nota-se em particular na vivência de Boromir o seu desejo mórbido de apoderar-se do anel, o que o leva a agredir Frodo pronunciando palavras que podem ser remetidas às três concupiscências referidas. O olhar capaz de desvelar os pensamentos do coração, que Galadiel, a mulher de Lothorien apresenta, faz pensar na imagem que Nosso Senhor e remete ao olhar de Jesus como Palavra que penetra o mais fundo e íntimo do nosso ser (Heb.4,12). A parábola dos talentos ressoa neste esplêndido diálogo entre Frodo e Gandalf: «Desejei tanto que tudo isto não acontecesse nos meus dias», exclamou Frodo. «Também eu» anuiu Gandalf, «como todos os que vivem estes acontecimentos. Mas não nos cabe a nós escolher. Tudo o que podemos decidir é como dispor do tempo que nos é dado.»

O importante é fazer bom uso do tempo, que foge das mãos e que, para quem tem critério cristão, vale mais que ouro, porque representa uma antecipação da glória que Deus nos concederá. A Graça está presente em cada página do romance e revela-se no momento decisivo: ninguém pode arrogar-se no mérito de ter salvo a Terra Média, pois todos ofereceram o seu contributo, todos os protagonistas da obra levam os seus pães e os seus peixes, mas nenhum deles pode multiplicá-los. É a Graça que se serve do hobits e dos homens, como dos elfos e restantes, que se alimenta da piedade de Bilbo e da misericórdia de Frodo, do heroísmo de Sam e da valentia de Aragorn, a jogar a última carta.


Tradução do italiano por Pe. Marco Luís.
Fonte: Valinor


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Oração pela beatificação do Venerável Pio XII



Oh Jesus, Pontífice eterno, que os dignastes elevar a vosso servidor fiel, Pio XII, à suprema dignidade de Vigário vosso na terra, e lhe concedestes a graça de ser um intrépido defensor da fé, um valoroso propulsor da justiça e da paz, um zeloso glorificador de vossa Santíssima Mãe e um exemplo luminoso de caridade e de todas as virtudes, dignai-vos, em virtude de seus méritos, conceder-nos as graças que pedimos, a fim de que, confiados em sua eficaz intercessão diante de Vós, possamos vê-lo um dia elevado à glória dos altares. Amém.